:\: Sandro Brincher :/:
Archive for julho, 2008
07 25th, 2008
Ontem à noite. Ela dormia. Descobri:
o que meu olfato percebia como dela era, na verdade, um pote plástico (com bico dosador). Em letras grifadas, mentia descaradamente: “NEUTRO”.
07 25th, 2008
Tinha a pele de palavras feita.
Ao toque dos lábios na nuca,
os poros em pânico,
o colo quente,
polegares encolhidos nos pés.
Gesto que abre a carne,
desnuda músculo em flor;
convolações em cada sarda
veia
pêlo
chaga.
Outro toque.
Terremoto,
e o gosto da alvura dos dentes.
Voz. Gesto. Tudo.
E as palavras correm
pela pele,
perfurando poros.
Ataque epiléxico,
alfabetos e bisturis em transe.
07 25th, 2008
Som que sai da sala.
Sibilante.
Sinos ensandecidos.
[Surdo]
Músicas que todos cantam.
Milongas miméticas.
Melodias em Mi menor.
[Mudo]
Cítaras em coro
(centenas).
Cínicas como a cidade.
[Cego]
Pregos nos pulsos.
Pedras nos pátios.
Pomares.
Primogênitos nas portas
[pausa]
…
07 25th, 2008
Deliberada e instransitivamente desterro.
Alijo – agora e tão logo exista de novo – o que d’além trouxe comigo,
o que d’outrora ficava até então.
Porção de mim cercada por todos os lados,
cerceada por todos os lábios.
Por isso desterro.
07 25th, 2008
Não se os julgue pela rubra aparência,
nem pela imobilidade fria,
nem por não terem versos grafados em seus corpos duros,
nem por parecerem estar ali como abutres,
a esperar que o fulgor de uma chama os alimente e os faça vivos,
mesmo desfazendo-se de suas polpas.
Que se os julgue apenas por isto:
de que servem objetos tão vermelhos e desprovidos de espinhos
se não podem ser deixados sobre uma mesa,
acompanhados dum cartão no qual
- à parte as declarações cardíacas -
leia-se o pedido de devolução de alguns livros do remetente,
que ainda sente a falta da destinatária?
07 25th, 2008
“Si es lo mismo el que labura
noche y día como un buey
que el que vive de las minas,
que el que mata o el que cura
o está fuera de la ley.”
Enrique Santos Discépolo.
Não sou de levantar bandeiras,
Porque levantaria essa?
Por que três vezes,
por que trinta e três?
Saio dos jardins,
entro nos quartéis,
não ensaio mais o
velho tango de…
como era mesmo o nome dele?
Desnudo, estetoscopicamente desnudo.
Rodela fria nas costas, escarro arraigado.
Tenho um fosso, além do nasal:
é no pormão, seu dotô; dá pena.
Pôr mão na pena e não sair nada.
- Estás bem, meu senhor.
- Mesmo, doutor, mesmo?
- Não, não mais o mesmo.
07 22nd, 2008
Meço os ciclos por cães mortos.
Desde ela, já se foram três.
Ignoro nascimentos por simples motivo: cães simplesmente aparecem.
Tampouco faço dos gatos medida: costumam fugir de casa antes do sétimo óbito. Cães esbarram no portão.
- Toby… Toby… Toby! Tempo imóvel na grama.
07 22nd, 2008
São vinte e três horas e vinte e dois minutos.
Não chove.
O cão parou de comer grama
(dor de barriga, dizem),
está mais magro
mais preto que os olhos fundos
de onde solta uma lágrima
– gota-alimento da relva que devora –
fina, crua e límpida. Cristal líquido.
Não sabe que doer barriga é menos
que ter a goela dos dedos travada.
São vinte e três horas e trinta e três minutos.
Hora do antibiótico, da ração e da assinatura.












