[ lição lacônica ]

empty school

Eu tava cansado, com sono (culpa do show da Strindberg no Taliesyn na noite anterior), com fome e com rinite. Cheguei ao carro e me dei conta de que tinha esquecido a bolsa na sala dos professores. Voltei querendo explodir o mundo pela minha burrice. Quatro andares escada acima. Na volta, ela me para e começa:

– Minha mãe disse que tu é uma pessoa muito espirituosa. Eu sempre mostro pra ela as coisas que tu escreve no Facebook e ela ri bastante.

Eu não sei lidar com elogios. Não tenho essa manha. Fico meio desnorteado, não sei o que responder, tendo a negar quase involuntariamente. Só consegui dizer “Ah, que ótimo. É um elogio e tanto”.
Ela ficou me olhando, sem dizer nada, como se esperasse alguma outra resposta. Perguntei se ela queria dizer mais alguma coisa. Queria sim.

– É que eu não sabia o que significava essa palavra. Olhei no dicionário, mas podia ter perguntado pra ela na hora. Fiz isso uma vez, mas ela não respondeu direito. Era como se tivesse ficado decepcionada com a pergunta. Nunca mais consegui perguntar nada depois disso.

E desabou. Chorou, chorou, chorou. Dei um abraço nela. Não aguentei e chorei junto. Sem motivo mesmo. Ou só porque estava cansado, com sono, com fome e com rinite. Ou porque tinha esquecido a bolsa. Ou porque há tempos queria um motivo pra desabar também. Não falamos mais nada. Só ficamos ali sentados por algum tempo; o tempo necessário.

Levantamos e fomos descendo. No caminho, ela disse que ia ficar por ali, precisava se recompor antes de encontrar as amigas lá na cantina.

– Obrigada, professor.
– Mas eu nem consegui dizer nada…
– Obrigada por me ouvir, então.

E eu, que tantos vocábulos uso no dia-a-dia para ajudar meus alunos a perceber o quanto podemos ser criativos – desde que tenhamos vocabulário para isso – em tudo que queremos dizer, aprendi uma inesquecível lição sobre o silêncio.