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Três semelhanças

A atendente do restaurante, já quase terminando meu prato, começa a conversa:
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode sim.
— Eu sou de São Luís, sabe?
— Sei, claro.
— Então, lá tem uma banda chamada Tribo de Jah.
— Que nome interessante. É banda de quê?
— De reggae. Lá tem muito reggae, mas eles são os mais famosos.
— Talvez eu tenha ouvido já. Gosto muito de reggae e ska.
— Ska eu não sei o que é, mas vou pesquisar. Escreve S, K, A?
— Isso, assim mesmo.
— Então, como vens aqui de vez em quando, toda vez que ouço tua voz, eu lembro da voz desse cara, o vocalista da Tribo de Jah. Cantas também, é?
— Canto muito, mas só no chuveiro ou em festas com som bem alto.
— Mas a tua voz é boa, devias cantar. Meu marido só me conquistou porque é bonito, gosta de música e a voz dele é muito boa. Ele me fala bom dia de manhã e eu já fico animada o resto do dia.
— Puxa, que bonito isso! A minha voz de manhã parece a do Darth Vader.
— Esse é aquele malvadão do filme lá, né?
— Sim, ele mesmo. Até que as pessoas me conheçam, eu sou um malvadão de filme em tempo integral. Mas teu marido canta?
— Ele cantando desafina muito, mas é tão bonitinho. A gente tá casado há 18 anos já.
— É uma vida.
— Sim, é a vida da minha mais velha, a Soraia. Soraia tá na Alemanha, namora com um polonês.
— Ah, a Polônia. Tem muita banda boa lá. Tem uma que tu vai gostar: VESPA. Assim mesmo, igual em Português, VESPA. É uma banda de ska. Eu tenho uma história muito boa envolvendo vespas, uma construção abandonada e meu irmão, mas se eu te contar agora vou comer macarrão frio.
— Ai, desculpa, dá aqui que eu esquento mais um pouco. Enquanto isso, tu vai contando a história.

Resumindo, esquentei esse macarrão umas 3 vezes, comi ali no balcão mesmo, contei várias histórias e conheci uma banda famosa de São Luís chamada Tribo de Jah que, segundo me disse a moça, tem vários cegos na formação, menos o vocalista, fato que me torna, junto com a voz e o gosto pelo reggae, ainda mais próximo dele.

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Nota: LÓGICO que eu conheço a Tribo de Jah há mil anos, mas não dava pra encerrar a conversa ali, né?

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Traumas de graduação I

Ah, a universidade! Tempo, para muita gente, dos primeiros porres; das primeiras sarradas; das primeiras decepções amorosas; das primeiras viagens coletivas (rodoviárias ou metafóricas); dos primeiros baseadinhos no bosque; dos primeiros tequinhos nos banheiros mais obscuros; das primeiras festinhas das quais se volta sem saber como; dos primeiros filhos que, como 99% da humanidade, não foram planejados; da primeira pedrinha encontrada no feijão do RU; do primeiro namorado(a) comunista; enfim, tempo de muitas novidades, umas boas, outras ruins, mas todas absolutamente construtivas.
Entretanto, nessa fissão que se opera entre o Ensino Superior e seu antecessor Médio, algumas das lacunas que se abrem são difíceis de se preencher. Dentro desse angustiante conjunto, uma se destaca mais do que todas: a substituição de uma palavra lúdica, festiva, congregadora, por outra que não faz mais do que delimitar o espaço entre dois períodos de tempo. Em outras palavras, a chaga que se abre quando passamos a usar “intervalo” em detrimento de “recreio” é do tipo para a qual, meus amigos e amigas, não há bálsamo que seja capaz de curar.

ZZ Top