figueira centenária - Praça XV de Novembro, Florianópolis

Vamos marcar alguma coisa?

Aquele tumulto da geral indo sacar o FGTS hoje e eu lá, sentadinho esperando minha vez para tratar de assuntos bem menos divertidos. Dois senhores no banco ao lado conversavam.
– E a Neca, e a Neca?
– Ah, morreu já.
– E a tia Biloca, a tia Biloca?
– Ah, morreu tomém, morreu.
– Ah, tomém?
– Sim, ela e aquelazinha que morava na frente da casa dela, como era o nome daquela raparigazinha?
– A Clodete, Cordete, uma coisa assim. Essa se foi-se tomém? Mas era tão novinha!
– Novinha naquele tempo, morreu com 68.
– Mas 68 é nova. Tás com quantos?
– Vô fazê 80 mês que vem. Tu já passaste disso faz horas, né?
– Ah, já, né? Tô com 83.
– Pa tu vê. A gente se conheceu com o quê, uns 5 ou 6, não foi?
– Foi com 6 tu, que era rapaz pequeno. Eu já tinha 10.
– Teu irmão tinha 6 tomém. E ele como que tá?
– Tá bem firme.
– Ah, é?
– É, fincado bem firme no chão.
– Ah, sai daí, ô. Orra, mas logo teu irmão que era sossegado, não bebia, não fumava, nada.
– É, pa tu vê. Pegô uma doença do pormão, não quis ir no médico, ficou ruim, aí quando foi já tava todo estropiado. Não durou mais um mês.
– Ah, mas pediu então, coitado, deus o tenha.
– Pediu, pediu.

Nisso chamam a senha de um deles. Ele se levanta e se despede do amigo:

– Aparece lá em casa sábado, vamo fritá umas tainhota.
– Não posso comê mais fritura faz anos, mas apareço sim.
– Eu tomém não posso, mas agora não tô mais nem aí. Mas eu faço um pirão pa ti, tolo.
– Sábado tô lá então. Abraço, Joélio.
– Abraço, Zeno.

Pois então, sabe aquele papo de “vamos marcar alguma coisa”? Tem gente que morre e não consegue marcar nada além de bobeira.

Publicado por

Sandro Brincher

Eu sou aquele que, de fones nos ouvidos, através da janela empoeirada do ônibus, perscruta os paralelepípedos irregulares da calçada de um parque à procura de alguém que tenha, ao resgatar do fundo das algibeiras um maço de cigarros molhados pela chuva que acaba de dar trégua, derrubado um bilhete premiado de loteria.

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