:\: Sandro Brincher :/:
Caixinha de Surpresas
11 12th, 2009A vida é uma caixinha de Surpresas: o chocolate é o de menos, a figurinha da onça é que conta.

Lembra? Então, tás ficando véio...
[ cartilha ]
11 1st, 2009I
Ivo viu a uva.
Aliás, veio vê-la.
Comeu-a a vaca.
Vovô viu o boi, que babava
bem baixinho, sem uva.
Bobo, o boi; e um vácuo vinícola.
II
Ivo cortou veia da professora.
Única via que viu para não mais ver uva.
Sem testemunhas: vovô babava vinho; bebê, no banho.
III
O bebê babava: vovô virava boi na brasa,
virava bebida na barba.
Ivo acendia vela, ouvia vozes e buzinas.
Vinham viaturas.
[ esverniana II ]
10 26th, 2009De todas as formas de amar, só acredito nas que se abstém da posse. Peço, então, por gentileza, que devolvas a porcaria do meu coração. Grato.
Num dia de verão até bem alegre
10 17th, 2009Sempre ouvi vozes; constantes, sutis, e em uma língua que desconhecia. Num dia de verão até bem alegre, entrei em uma empresa de comércio exterior, ou foi de advocacia, não lembro mais, e folheei a gramática de uma língua estranha. Coincidia ser a das vozes que ouvi todos os dias de minha vida. Imediatamente, entendi-as: descreviam, com detalhamento e precisão, a verdadeira técnica de voar. Deixei cair o livro, fui à janela, olhei para fora e senti um calor enorme, meio que um poder. Abri os braços, mirei o horizonte e mergulhei. O vento batia em meu rosto, uma leveza muita, meu sorriso me cobria inteiro. As pessoas ficaram espantadas: como, num dia de verão assim, até bem alegre, não se deixa sequer uma nota?
[ esverniana I ]
10 15th, 2009Não há surpresa alguma: o mesmo vento que nos viu,
o mesmo barro que nos untou,
a mesma luz que, míope, distante, nos fez vultos,
o mesmo fogo que, de algum lugar lá dentro,
explodiu-nos a sintaxe da língua-músculo,
enroscando dizeres,
impelindo-nos a não perder um só movimento,
uma só sílaba,
um só suspiro,
é esse conjunto mesmo de objetos avessos à forma
- sopro, lume, lodo, ar|dor -
a síntese do ruído que rasga o peito:
e dura?
[ decepções I ]
07 25th, 2008Ontem à noite. Ela dormia. Descobri:
o que meu olfato percebia como dela era, na verdade, um pote plástico (com bico dosador). Em letras grifadas, mentia descaradamente: “NEUTRO”.
[ anatômica I ]
07 25th, 2008Tinha a pele de palavras feita.
Ao toque dos lábios na nuca,
os poros em pânico,
o colo quente,
polegares encolhidos nos pés.
Gesto que abre a carne,
desnuda músculo em flor;
convolações em cada sarda
veia
pêlo
chaga.
Outro toque.
Terremoto,
e o gosto da alvura dos dentes.
Voz. Gesto. Tudo.
E as palavras correm
pela pele,
perfurando poros.
Ataque epiléxico,
alfabetos e bisturis em transe.
[ 100tidos ]
07 25th, 2008Som que sai da sala.
Sibilante.
Sinos ensandecidos.
[Surdo]
Músicas que todos cantam.
Milongas miméticas.
Melodias em Mi menor.
[Mudo]
Cítaras em coro
(centenas).
Cínicas como a cidade.
[Cego]
Pregos nos pulsos.
Pedras nos pátios.
Pomares.
Primogênitos nas portas
[pausa]
…
[ desterro ]
07 25th, 2008Deliberada e instransitivamente desterro.
Alijo – agora e tão logo exista de novo – o que d’além trouxe comigo,
o que d’outrora ficava até então.
Porção de mim cercada por todos os lados,
cerceada por todos os lábios.
Por isso desterro.
[ extintores ]
07 25th, 2008Não se os julgue pela rubra aparência,
nem pela imobilidade fria,
nem por não terem versos grafados em seus corpos duros,
nem por parecerem estar ali como abutres,
a esperar que o fulgor de uma chama os alimente e os faça vivos,
mesmo desfazendo-se de suas polpas.
Que se os julgue apenas por isto:
de que servem objetos tão vermelhos e desprovidos de espinhos
se não podem ser deixados sobre uma mesa,
acompanhados dum cartão no qual
- à parte as declarações cardíacas -
leia-se o pedido de devolução de alguns livros do remetente,
que ainda sente a falta da destinatária?



























