:\: Sandro Brincher :/:

Manual de procedimentos para descontrole diário.

[ sacra I ]

12 14th, 2009

Invejo-os, os medíocres.
O andar enladrilhado,
a roupa suficientemente amassada,
o olhar abaixado, atravessando o ar,
a mastigar o pão-de-ló.
Enciuma-me vê-los, apáticos, de mãos
dadas – equilibradas – àquelas a quem eu,
não fossem as folhas que me tocam alimentar
(coisa de uma infância nova),
diria coisas como “eis que a gota é isso,
cheira” só pelo gosto
de vê-las corar ou fugir,
ou por saber que assim se treinam as audições
e os corpos e as línguas; sabe-se.
Meio que comem, falam, amam.
Invejo-os – alguns, sobretudo – pelo afeto arrastado
que lhes dedicam as ninfas.
É com esse pesar que,
assim oculto por entre as frestas de uma e outra linha,
entrego aqui meu sacerdócio, inconformado
com as réstias duma cosmogonia desfigurada.
Invejo-os, confesso, mas a um mais que todos.


Caixinha de Surpresas

11 12th, 2009

A vida é uma caixinha de Surpresas: o chocolate é o de menos, a figurinha da onça é que conta.

chocolate Surpresa

Lembra? Então, tás ficando véio...


[ cartilha ]

11 1st, 2009

I
Ivo viu a uva.
Aliás, veio vê-la.
Comeu-a a vaca.
Vovô viu o boi, que babava
bem baixinho, sem uva.
Bobo, o boi; e um vácuo vinícola.

II
Ivo cortou veia da professora.
Única via que viu para não mais ver uva.
Sem testemunhas: vovô babava vinho; bebê, no banho.

III
O bebê babava: vovô virava boi na brasa,
virava bebida na barba.
Ivo acendia vela, ouvia vozes e buzinas.
Vinham viaturas.


[ esverniana II ]

10 26th, 2009

De todas as formas de amar, só acredito nas que se abstém da posse. Peço, então, por gentileza, que devolvas a porcaria do meu coração. Grato.


Sempre ouvi vozes; constantes, sutis, e em uma língua que desconhecia. Num dia de verão até bem alegre, entrei em uma empresa de comércio exterior, ou foi de advocacia, não lembro mais, e folheei a gramática de uma língua estranha. Coincidia ser a das vozes que ouvi todos os dias de minha vida. Imediatamente, entendi-as: descreviam, com detalhamento e precisão, a verdadeira técnica de voar. Deixei cair o livro, fui à janela, olhei para fora e senti um calor enorme, meio que um poder. Abri os braços, mirei o horizonte e mergulhei. O vento batia em meu rosto, uma leveza muita, meu sorriso me cobria inteiro. As pessoas ficaram espantadas: como, num dia de verão assim, até bem alegre, não se deixa sequer uma nota?


[ esverniana I ]

10 15th, 2009

Não há surpresa alguma: o mesmo vento que nos viu,
o mesmo barro que nos untou,
a mesma luz que, míope, distante, nos fez vultos,
o mesmo fogo que, de algum lugar lá dentro,
explodiu-nos a sintaxe da língua-músculo,
enroscando dizeres,
impelindo-nos a não perder um só movimento,
uma só sílaba,
um só suspiro,
é esse conjunto mesmo de objetos avessos à forma
- sopro, lume, lodo, ar|dor -
a síntese do ruído que rasga o peito:
e dura?


[ decepções I ]

07 25th, 2008

Ontem à noite. Ela dormia. Descobri:
o que meu olfato percebia como dela era, na verdade, um pote plástico (com bico dosador). Em letras grifadas, mentia descaradamente: “NEUTRO”.


[ anatômica I ]

07 25th, 2008

Tinha a pele de palavras feita.
Ao toque dos lábios na nuca,
os poros em pânico,
o colo quente,
polegares encolhidos nos pés.
Gesto que abre a carne,
desnuda músculo em flor;
convolações em cada sarda
veia
pêlo
chaga.
Outro toque.
Terremoto,
e o gosto da alvura dos dentes.
Voz. Gesto. Tudo.
E as palavras correm
pela pele,
perfurando poros.
Ataque epiléxico,
alfabetos e bisturis em transe.


[ 100tidos ]

07 25th, 2008

Som que sai da sala.
Sibilante.
Sinos ensandecidos.
[Surdo]

Músicas que todos cantam.
Milongas miméticas.
Melodias em Mi menor.
[Mudo]

Cítaras em coro
(centenas).
Cínicas como a cidade.
[Cego]

Pregos nos pulsos.
Pedras nos pátios.
Pomares.
Primogênitos nas portas
[pausa]


[ desterro ]

07 25th, 2008

Deliberada e instransitivamente desterro.
Alijo – agora e tão logo exista de novo – o que d’além trouxe comigo,
o que d’outrora ficava até então.
Porção de mim cercada por todos os lados,
cerceada por todos os lábios.
Por isso desterro.



  • Textos deste blog

    Siga este blog

    Curiosa(o), é?

    Flickr Fotos recentes

    Comme Duchamp, mais ailleursTráfego aéreoNa corda firmeAll-Star, fácil pra deitarBatai, o cheirador de tijolos

    Info

    Todos os textos aqui exibidos são de minha autoria, exceto aqueles expressamente identificados como de terceiros. Para citá-los corretamente, aprenda o hermetismo da ABNT ou utilize algo como:
    BRINCHER, Sandro. Nome do texto. Sandro Brincher blog. Disponível em < www.brincher.com.br/blog >. Acesso em: xx de xxxxx de 2010.


    Twitter

    • "O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, só vos faltam as qualidades". 1 hr ago
    • "É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar". Almada Negreiros (1917), sobre Floripa, digo, Portugal. 1 hr ago
    • Grêmio passeou em Santa Maria, 3 x 0. Que venham os Putason (se liga na etimologia, xirú) colorados! 1 hr ago
    • @paularibeiro À vezes é pegadinha; o pessoal "subir 5 andares de escada é saudável" tem desses surtos.... in reply to paularibeiro 2 hrs ago
    • @paularibeiro Caiste no conto do elevador do CCE? tsc tsc tsc... =) in reply to paularibeiro 2 hrs ago
    • More updates...

    Posting tweet...

    Powered by Twitter Tools





    Li e recomendo!