:\: Sandro Brincher :/:
09 1st, 2010
Posso ler teus lábios.
Falam de distâncias, de uma forma breve de óbito à qual só se acede através do contato das mãos úmidas com as linhas dos bilhetes.
Dissertam sobre um varal de roupas coloridas que toca, conforme o vento, o muro da pessoa mais triste da rua (enorme a rua, tens que ver).
Dizem de uma dor sazonal, que começa ao girar da chave na porta e termina, tarde, com um latido mais forte, reconhecedor.
Exprimem uma cicatriz no joelho, sobrancelhas díspares, digitais num espelho, uma calça por costurar, um resto de franja na escova; e isso é a galáxia, afinal.
Posso ler teus lábios, acredite.
08 19th, 2010
Ocorreu-me hoje lendo o jornal: das quase 7 bilhões de pessoas neste planeta, só uma me interessa. Resta, entretanto, o problema de ainda não a ter conhecido.
08 16th, 2010
Eu tinha pouco menos de 6 anos. O circo Vostok, além da grande atração da época, à exceção da minha, não tinha ainda visto qualquer tragédia.
Fui ao banheiro. Sozinho. Não aceitava escolta. Aproximei-me do urinol, ao nível do piso, e baixei as calças. Um homem me olhava. Aproximou-se e disse “não, assim não, vou te explicar”.
Minha mãe me encontrou do lado de fora da lona, chorando baixo, mas não contei o que era. Nunca contei. Não tive coragem. Sentia muita vergonha.
Cada vez que vejo um circo, um urinol ou uma pessoa que explica algo, sinto um pouco daquilo de novo. Esqueço não. Sei que não posso culpar aquele homem que, por pudor, não me ajudou a seguir as instruções verbais que me deu. Não posso culpá-lo nem por aquela vergonha, nem pelas seguintes, de ter molhado as calças ainda várias vezes até adquirir a habilidade de sacar pela braguilha. Naquele circo aprendi a aversão a puras teorias.
07 12th, 2010
Olhar para a caneca sobre a mesa, ver que por seus furos dietétricos se esvaem as calorias de verões idos; aspirar o olor que, lá do berço, anuncia sem dizer nada, pois, por enquanto, todo o anseio de seu emissor é um peito e toda sua linguagem é um descompassado alternar entre lágrima e sorriso; olhar para a grama que, lá no pátio sitiado por cercas-vivas, tenta superar sua sina de ter evoluído para ser pisada, e lembrar que não joga futebol há anos por causa do joelho que dói, e por isso engordou tanto, e por isso faz dieta; mirar um corpo fresco que passa na rua, memória dura, como pouco há no próprio corpo; afastar do prato a folha, atrair o lipídeo, o queimado, com prazer e culpa; eis a existência, eis o refúgio onde a saliva habita.
06 21st, 2010
Pues, Borges, te lo digo yo.
En todas las películas que he visto,
todas las novelas que he leído,
todos los poemas que,
aunque no los hubiera solicitado,
escuché recitados,
en todo eso, me parece,
un sólo tema existe:
el hombre que lo perdió a todo
sin jamás haber tenido cosa alguna.
No se ignora cualquier muslo.
05 20th, 2010
Estive fora todo esse tempo.
Lugar confortável, visão privilegiada
de curvas, uma estrada com pedras,
flores tímidas
e um cachorro desafortunado a cada par de dias.
Tudo caía em mim como um sopro só;
doces e salgados, os insetos mesmos eram,
pese sua monstruosa complexidade,
como o ar por onde rasgavam espaços:
puro fluxo avesso a estruturas.
Tudo caía em mim como só caem
as coisas sem apego aos nomes.
Ali todas eram atraídas pelo branco,
e o cinza e o azul,
consangüíneos nos lugares em que
o cinabrino perdeu gosto: é de vida o grosso de seu tom.
Mais além, abaixo, uma voz esperava.
Pouco se precisava para não ouvi-la,
esperava olhos para gritá-los e cantar com eles
os restos de uma fotografia. Contentei-me em
desenhar moldura.
Olhamo-nos uma última vez,
de novo.
O reflexo andava em meu favor,
aliviava meus lábios do peso do olho.
Com o polegar cobri tudo o que havia,
abri uma garrafa e antes do gole abriram-se as luzes.
- Chegamos. Desce do colo.
05 13th, 2010
Esfarela-se o ritmo, num ponto, ao homem que cheira.
Cada uma de suas narinas é uma maldição sensível.
Indiferente se nisso fundamenta algum prazer.
Basta-lhe uma foto: deseja a morte [
seu sangue (digo, todo) é num instante aquele aroma].
Esfarela-se o corpo, arrítmico, do homem olfato.
04 28th, 2010
Havia um homem – poderia ser uma mulher, enfim – que desejava sempre estar onde as coisas estão.
Um dia disseram: lá, tal hora, estarão as coisas. Foi (sem saber que lá, naquela hora, um grande desastre se daria).
Atrasou-se para sair e não pegou o desastre. Voltou extremamente desapontado por lhe terem mentido.
03 11th, 2010
Minha esposa, deus a tenha, um dia me disse que gostava muito do meu corpo na época em que nos conhecemos. É incrível o que uma descuidada especificação temporal pode fazer, sobretudo quando já não há muito a salvar num casamento.
Causa-me estranheza lembrar tal fato agora, quase vinte anos depois e a poucos metros de ter cumprido integralmente minha pena. Acho que ela morreria de inveja; meus peitos hoje são maiores do que os seus jamais foram.
02 2nd, 2010
Havia todo tipo de telas. Leves; imóveis; fáceis; esquecidas. Havia também frutas. Não sabes dizer nomes? Ah, sim. Ácidas; rugosas; orvalhadas; fendidas; até podres.
“Frutas, 1942″. Odiaste aquela assinatura, percebi: uma das letras
era como a haste perfeita de uma pera, um pequeno atentado às metáforas.
Paramos à porta, um após o outro, e a chuva não mudou; todo o asfalto era o curso de um breve relato.
Descemos. Estimei nossa ruidosa distância. O ar era quente, e os corpos. A luz era um arranjo plástico que – só me ocorre esta -
servia a ressaltar a vacuidade semântica do vestido. O som era cheio, grave, longo, como se uma tuba se esforçasse em tanger com seu hausto todas as extremidades da Terra numa única rajada.
Foi ali mesmo, foi rápido. Teus olhos eram um poço (quis mergulhar) enquanto me levavam.
Quis que durasse – mais que este exílio.












