Os domicílios

– Você pensa em morrer aqui, Sandro?
A pergunta me pegou de surpresa. A bem da verdade, nunca pensei em morrer neste ou naquele lugar, ser enterrado deste ou daquele jeito, ser cremado ou transformado em sabonete alergênico e distribuído aos poucos desafetos assumidos, estar velhíssimo numa cama com a família ao redor ou ver meu paraquedas falhar a dois mil pés de altitude. Juro, é tipo “whisky ou água de coco?”. Entretanto, dessa vez a coisa me pegou desprevenido. Depois de muito divagar, notei que o olhar dela denunciava um misto de pavor e incompreensão.
Tá muito louco isso tudo que estou falando?
Sim, está. – ela respondeu.
Aproveito para confessar que adoro a objetividade chinesa. É sempre tudo no olho, sem eufemismo, sem vaselina.
É que morrer é uma aventura complexa mesmo e quem está morto não pode nem discordar de mim.
Morto? Calma, calma. Não, eu não quis dizer “morrer”, eu quis dizer “morar”. Desculpa, hahahaha.
Hahahaha! Puxa, aí é outra história. Não sei se pretendo morar aqui para sempre, mas tenho três anos e meio pela frente ainda, então ainda tenho muito no que pensar.
É verdade.
A conversa voltou ao tópico inicial [alguma coisa sobre pronomes oblíquos]. A aula acabou e cada um seguiu seu rumo. No caminho para casa, sentei um pouco em frente ao prédio e fiquei olhando aqueles barcos de carga lentamente fazendo suas manobras. Ao fundo, à esquerda, os grandes resorts com seus cassinos encrustados como pequenas pérolas nas quais se pode apostar os ganhos de toda uma vida em um lance de dados. Bem à direita, no alto da montanha, a centenária capela portuguesa em sua vigília permanente. O rio à frente, parado, pesado, escuro. A chuva apressando os passos dos que escolheram a noite como companhia. Não tenho mais dúvidas. É tão interessante morar aqui quanto aqui mesmo entregar a moeda ao barqueiro. Aqui é bom porque aqui é o que existe agora.

Vamos marcar alguma coisa?

Aquele tumulto da geral indo sacar o FGTS hoje e eu lá, sentadinho esperando minha vez para tratar de assuntos bem menos divertidos. Dois senhores no banco ao lado conversavam.
– E a Neca, e a Neca?
– Ah, morreu já.
– E a tia Biloca, a tia Biloca?
– Ah, morreu tomém, morreu.
– Ah, tomém?
– Sim, ela e aquelazinha que morava na frente da casa dela, como era o nome daquela raparigazinha?
– A Clodete, Cordete, uma coisa assim. Essa se foi-se tomém? Mas era tão novinha!
– Novinha naquele tempo, morreu com 68.
– Mas 68 é nova. Tás com quantos?
– Vô fazê 80 mês que vem. Tu já passaste disso faz horas, né?
– Ah, já, né? Tô com 83.
– Pa tu vê. A gente se conheceu com o quê, uns 5 ou 6, não foi?
– Foi com 6 tu, que era rapaz pequeno. Eu já tinha 10.
– Teu irmão tinha 6 tomém. E ele como que tá?
– Tá bem firme.
– Ah, é?
– É, fincado bem firme no chão.
– Ah, sai daí, ô. Orra, mas logo teu irmão que era sossegado, não bebia, não fumava, nada.
– É, pa tu vê. Pegô uma doença do pormão, não quis ir no médico, ficou ruim, aí quando foi já tava todo estropiado. Não durou mais um mês.
– Ah, mas pediu então, coitado, deus o tenha.
– Pediu, pediu.

Nisso chamam a senha de um deles. Ele se levanta e se despede do amigo:

– Aparece lá em casa sábado, vamo fritá umas tainhota.
– Não posso comê mais fritura faz anos, mas apareço sim.
– Eu tomém não posso, mas agora não tô mais nem aí. Mas eu faço um pirão pa ti, tolo.
– Sábado tô lá então. Abraço, Joélio.
– Abraço, Zeno.

Pois então, sabe aquele papo de “vamos marcar alguma coisa”? Tem gente que morre e não consegue marcar nada além de bobeira.

[ nesse ínterim ]

Minha primeira namoradinha morreu hoje. Talvez ela nem lembrasse mais de mim porque não fui seu primeiro e duvido muito que tenha sido um dos mais marcantes. Eu era jovem, egoísta e ilhado demais para me ocupar em deixar marcas em alguém. O velório está acontecendo a umas três quadras da minha casa, mas não gosto de velórios. Achei mais importante registrar o fato e uma frase que ela disse. “A gente não vai funcionar. Tu é uma pessoa legal, é inteligente, educado, calmíssimo, mas não tem brilho”. Passei a vida correndo atrás disso mesmo sem ter ideia do que se tratava. Um dia, uma namorada disse “O que eu mais gosto em ti é esse teu brilho no olhar. Ele está em tudo que tu faz”. Casamos e ficamos juntos até o dia em que ela morreu, há um par de anos. A primeira e a última se foram. Nada do que aconteceu nesse ínterim foi tão relevante para ser lembrado, exceto os amores – poucos, mas infinitos. O que resta agora é um álbum desbotado, uma música antiga e uma indefinida espera.