Cinto de castidade

Fila do supermercado. Duas adolescentes conversam sobre um rapaz, namorado de uma delas.

̶ Deixa eu te falar então, já quebrei o pau com ele ontem.
̶ Ah, já? Mas por quê?
̶ Ah, guria, entrei no Insta dele e tá, de boa, né? A última fotinho dele ̶ maravilhosa, por sinal, desculpa… ̶, cheia dos likezinho de umas guria que eu nem sei quem é. Ah, entrei no perfil de uma por uma. Tinha cinco que eram aqui das área mesmo. Ah, já me indignei.
̶ Ai, guria, mas aí já é demais, tu não acha? Como que ele vai controlar isso?
̶ Ah, querida, ele que se vire. Cinco gambevinha de olho no meu boy, que é isso? Devem ser tudo ali do Intendente, que ali só tem dessas, né?
̶ Mas perfil público é isso, amiga. Ele não tem controle, qualquer pessoa do mundo pode ver e curtir.
̶ Como assim público? Como que arruma isso?
̶ Ele tem que botar o cadeadinho que nem no Twitter. Só quem ele aceita vai ver as fotos dele.
̶ Ah, mas deixa que eu já resolvo isso agora. Vai botar cadeadinho é hoje senão já pode ir se acampando lá no Intendente com as fãzinha dele.
̶ Hahahahaha, meu deus, guria, tu é fogo mesmo, hein?
̶ Ah, eu sô mesmo, amiga. Se quer ficar comigo, é com as minhas regras, senão já vai andando que a fila tá grande!

* * *

Moral da história: use cadeadinho e não marque bobeira perto da Escola Básica Intendente José Fernandes, na Praia dos Ingleses, Florianópolis.

[ nesse ínterim ]

Minha primeira namoradinha morreu hoje. Talvez ela nem lembrasse mais de mim porque não fui seu primeiro e duvido muito que tenha sido um dos mais marcantes. Eu era jovem, egoísta e ilhado demais para me ocupar em deixar marcas em alguém. O velório está acontecendo a umas três quadras da minha casa, mas não gosto de velórios. Achei mais importante registrar o fato e uma frase que ela disse. “A gente não vai funcionar. Tu é uma pessoa legal, é inteligente, educado, calmíssimo, mas não tem brilho”. Passei a vida correndo atrás disso mesmo sem ter ideia do que se tratava. Um dia, uma namorada disse “O que eu mais gosto em ti é esse teu brilho no olhar. Ele está em tudo que tu faz”. Casamos e ficamos juntos até o dia em que ela morreu, há um par de anos. A primeira e a última se foram. Nada do que aconteceu nesse ínterim foi tão relevante para ser lembrado, exceto os amores – poucos, mas infinitos. O que resta agora é um álbum desbotado, uma música antiga e uma indefinida espera.