Florianópolis, março de 2011.
Caro doutor, já que me pergunta, aconteceu sim. Uma única vez. Era 2009, finalzinho de janeiro, talvez dia 30. Estava muito, muito quente. A cidade não costumava ser assim, então o calor era realmente personagem naquele dia. Delimitava ações, pensamentos, paisagens, talvez tivesse mesmo definido algum relacionamento [carros sem ar-condicionado não são apropriados para o amor; o arroz que ela esqueceu fora da geladeira e ele não pode comer na volta do serviço porque azedou rápido demais foi a gota d’água etc]. Eu olhava o homem sentado à janela, cabeça prensada no vidro, deixando aquela marca sebosa da pele, uma impressão da testa. Era muito gordo e ocupava quase dois lugares. Talvez por isso ninguém, à exceção da mirrada colegial, tivesse tomado assento ao seu lado, mesmo com o ônibus lotado. A expressão geral era a melhor definição que eu já vira do que se chama morbidez, doutor. Ninguém se movia sem extrema necessidade. O ar pesava. A menina lia, alheia ao infortúnio climático de seus convivas de transporte. Com alguma regularidade, tirava os óculos enormes e os esfregava na camiseta para desembaciá-los. Sobressaltava-se, hesitava, avançava a leitura com um misto de avidez e temor. Percebi que não faltavam muitas páginas para o final. Antes de alcançá-lo, contudo, aconteceu.
Ela deu um pequeno salto na cadeira – não o suficiente para abalar o descanso do gordo – e deixou cair o livro. Num rápido reflexo, segurou-o entre as pernas antes que tocasse o chão. Levantou a cabeça e olhou ao redor, quase em câmera lenta. Quisera talvez constatar se a experiência que acabara de provar havia atingido os demais. Tirou os óculos, transtornada. Os lábios tremiam, tremiam, e os olhos se inundaram de lágrimas. Ela as segurava como, digamos, uma mãe que, numa enchente, com uma das mãos em carne viva segura a corda que a tirará da correnteza e com a outra o único bebê que o pai já morto lhe deixou. Mais ou menos assim. Então, as paredes do ônibus se dissolveram; já não havia teto, janelas, catraca, assentos preferenciais ou ordinários; os passageiros flutuavam para todos os lados – até o gordo, pasme – e se integravam, etéreos, à nuvem de nada na qual toda a Terra se transformava: assim dizia o olhar da menina. Era uma mirada que atravessava o cosmo e arrastava consigo cada átomo de vida insensível que estivesse em seu caminho. Não segurou: abriu levemente a boca, tapando-a com uma das mãos, e deixou que o choro explodisse. Eu queria muito ouvir, mas só via. Ela continuava olhando para os lados, como se procurasse alguém com quem compartilhar aquela que era, sem dúvidas, a sensação mais terrível e mais importante jamais experimentada em toda a existência humana. Disso eu não tinha dúvidas. Queria muito tê-la ouvido, muito mesmo. “Diga, mocinha… que aconteceu? Conte. Compartilhe comigo”, queria ter dito. Eu jamais quis tanto alguma coisa, doutor, jamais.
Enfim, desistiu de buscar solidariedade. Encostou-se bem no assento, respirou um pouco, resgatou o livro e o colocou no colo, fechado. Instantes depois, a mãe, vinda lá dos bancos da frente, tocou-lhe de leve no ombro e disse “vamos, filha… o nosso é o próximo”, e desceram.
Entre os meus, o senhor já sabe, me sinto bem. Não me dou conta da diferença. Além disso, escrever sempre foi algo tão corriqueiro – e agora tão terapêutico – para mim que nunca achei que precisaria de nada mais. Entretanto, naquele dia, doutor, e somente naquele dia, eu senti uma profunda tristeza por ser surdo-mudo. Foi a única vez.
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