:\: Sandro Brincher :/:
Gramáticas
03 3rd, 2010Nosso descompasso com as mulheres não se dá por usarem outra língua. Na via ou na vida, usam sintaxes inglesas, inversas às nossas. E o certo inexiste em ambas.
Escolhas
03 2nd, 2010Eu sei que não fiz uma boa escolha na vida quando a prateleira que mais frequento na biblioteca é justo aquela que tem fauna – teias de aranha e colônias de ácaros.
Uma necessidade
03 1st, 2010É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar… manda chumbo nelas todas.
[ uma possessão ]
02 2nd, 2010Havia todo tipo de telas. Leves; imóveis; fáceis; esquecidas. Havia também frutas. Não sabes dizer nomes? Ah, sim. Ácidas; rugosas; orvalhadas; fendidas; até podres.
“Frutas, 1942″. Odiaste aquela assinatura, percebi: uma das letras
era como a haste perfeita de uma pera, um pequeno atentado às metáforas.
Paramos à porta, um após o outro, e a chuva não mudou; todo o asfalto era o curso de um breve relato.
Descemos. Estimei nossa ruidosa distância. O ar era quente, e os corpos. A luz era um arranjo plástico que – só me ocorre esta -
servia a ressaltar a vacuidade semântica do vestido. O som era cheio, grave, longo, como se uma tuba se esforçasse em tanger com seu hausto todas as extremidades da Terra numa única rajada.
Foi ali mesmo, foi rápido. Teus olhos eram um poço (quis mergulhar) enquanto me levavam.
Quis que durasse – mais que este exílio.
Dia de cogumelo
01 25th, 2010Nada mais a calhar para um aprendiz de maluco que encontrar no próprio pátio aquelas frutificações típicas de alguns fungos das divisões Basidiomycota e Ascomycota. Isso, cogumelos. Mandei pro Flickr.
Diário de um tratamento
01 24th, 2010Ontem foi o primeiro dia dos últimos dois meses que não me viu acordar com forte palpitação. Até ontem, era rotina. Coração explodindo na garganta, tremor, ausência total de fome e um desejo insuportável de sair de casa. Tomava o medicamento – cloridrato de sertralina – e saía. Por cerca de duas horas e meia, tomava o rumo da Beira-Mar e só voltava quando o sinal do cansaço era evidente. Chegava, tomava um copo de suco ou achocolatado, tentava escrever a dissertação. Nada. Só aquele turbilhão de pequenos pensamentos fuzilando os neurônios. À tarde, já com o organismo cloridratado, vinha alguma pacificação, duradoura até a noite. Deitava às 02:00, acordava às 07:00 e tudo se repetia. Ontem foi meu primeiro dia sem rotina. Ontem e em uma ou duas tardes por semana nas quais a vida, personificada, resolvia me dar um sorriso. Sinais de melhora à vista.
[ esverniana III ]
01 18th, 2010Conheço poucos cães de três pernas à exceção do que habita meu pátio.
Vejo-o correr como se fossem muitas: só quando,
no ritmo cadenciado dos passos, anda
é que faz notar sua condição.
Aquele membro em branco, que menos falta ao corpo que aos olhos fere,
é igualmente memória de que só o animal que nos habita, se liberto,
está apto a ocupar o vazio.
Somente a imagem de seu grito, escandaloso e visceral,
faz surgir órgãos e sentidos esquecidos.
[ desterro II ]
01 17th, 2010Sou uma alma insular / só me desilho pra poder voltar.
[ os pedidos prévios ]
01 4th, 2010Jamais exigi que entendesses as pequenas brechas que propositalmente – e não raras vezes – eclodiam em meus pequenos devaneios ao café da manhã – sempre abraçados pelas paredes – enquanto, com pressa, te arrumavas para ir ao trabalho.
Em nenhum momento fiz menção ao vazio que sentia quando, à noite, depois da janta e do noticiário, no leito tangenciavas meu sexo sem antes ensaiar um afago, insinuar um beijo, libertar algum murmúrio que indicasse que ali, naquele espaço de nascer e morrer, havia uma linguagem que nos tocava a ambos.
Nunca disse o quanto havia de bucólico e aterrador naquele sol que se esparramava como uma gema furada sobre nossas – o cão estava sempre lá – cabeças quando nos sentávamos sobre a duna para, ao longe, observar, singrando o asfalto quente da tarde, aquela que foi a mais esperada das bicicletas daquela rua.
Hoje, mesmo com os tortos paralelepípedos da minha estrada, as telhas de barro que me cobrem e o morro que me priva do crepúsculo com alguma antecedência, até fritar um ovo me faz chorar.
[ sacra I ]
12 14th, 2009Invejo-os, os medíocres.
O andar enladrilhado,
a roupa suficientemente amassada,
o olhar abaixado, atravessando o ar,
a mastigar o pão-de-ló.
Enciuma-me vê-los, apáticos, de mãos
dadas – equilibradas – àquelas a quem eu,
não fossem as folhas que me tocam alimentar
(coisa de uma infância nova),
diria coisas como “eis que a gota é isso,
cheira” só pelo gosto
de vê-las corar ou fugir,
ou por saber que assim se treinam as audições
e os corpos e as línguas; sabe-se.
Meio que comem, falam, amam.
Invejo-os – alguns, sobretudo – pelo afeto arrastado
que lhes dedicam as ninfas.
É com esse pesar que,
assim oculto por entre as frestas de uma e outra linha,
entrego aqui meu sacerdócio, inconformado
com as réstias duma cosmogonia desfigurada.
Invejo-os, confesso, mas a um mais que todos.




























