:\: Sandro Brincher :/:
[ ocupações III ]
12 5th, 2011– Ushca! Ushca! Ó o booooooooooi!
Era a deixa pra quando chegava o engenheiro. Os menores e os não fichados em geral sumiam. Esconderijo é coisa que não forma fila em construção. Eu ali, quietinho, espiando a importância toda do homem por detrás das sacas de cimento. Ele ajeitava o capacete branco e ia ralhando.
– A planta baixa, Seu Adão… As medições da alvenaria, Seu Adão… E o guarda-corpo aqui de cima? Olha a DRT, Seu Adão…
Eu achava um ótimo nome pra mestre de obras – e isso que nem fiz catequese.
Comecei a me chatear com o buraco no garrão. O cimento fazia um suquinho com o suador e dava um ardume ali. A vó tinha me dito pra botar creolina, mas não botei, sei que queima.
Era um bicho-de-pé. Ah!, que quando pego um, dou esperança. Deixo embarrigar, ficar todo gordinho, formar o panelão. Vira tipo um olho, aquela bolita branca com um ponto bem preto no miolo. Fica fácil: pego uma agulha bem fina e vou abrindo na volta, devagar, cuidando pra não estourar. Sai inteirinho.
O mano diz que eu tenho a manha de doutor, que devia fazer isso da vida, cirurgia de bicho-de-pé. Capaz que dava dinheiro. Eu dizia pra ele assim: “sabes que o olho pisca se a gente fica encarando ele com vontade?”. Ele sabia que era mentira, mas, no fundo bem fundo, queria acreditar em alguma coisa, nem que fosse em mim.
– Bota uma polvorazinha e taca fogo. Vi no filme do Rambo, diz o tio.
Fiz… Fiadaputa, pura maldade. Agora ó aí, cratera cheia de sangue, suor e cimento, e eu louco pra choramingar. O engenheiro ali, todo garboso, arrotando comando pra tudo que é lado.
– Cadê o capacete deles, Seu Adão? Cadê os óculos do armador, Seu Adão? Cadê¹ cadê² cadê³, Seu Adão?
Seu Adão, certeza, queria empurrar o jacu lá de cima, mas desceram antes disso. Ele parou bem pertinho donde eu tava.
– Seu Adão, o senhor sabe como tira berne? Meu cachorro pegou um no sítio.
– Sei não, sei não.
Eu sabia. Aliás, sabia tirar qualquer tipo de bicho desses, só que não me apresentei. Não podia, era menor, era proibido. Só continuava porque o dinheiro dava mais que ajudar a vó a catar ferro velho (só o alumínio e o cobre valiam bem). Foi duro me segurar ali, mas consegui.
Quando voltei da obra, contei pro meu irmão. Ele fez uma cara de tão desapontado que eu quis saber o que era.
– Mas, mano… um doutor de verdade nunca nega socorro pruma pessoa que precisa de ajuda…
Passei as últimas semanas pensando no que ele disse. A chance de começar passou ali, na minha frente. Capaz que não aparece outra.
[ a única vez ]
10 15th, 2011Florianópolis, março de 2011.
Caro doutor, já que me pergunta, aconteceu sim. Uma única vez. Era 2009, finalzinho de janeiro, talvez dia 30. Estava muito, muito quente. A cidade não costumava ser assim, então o calor era realmente personagem naquele dia. Delimitava ações, pensamentos, paisagens, talvez tivesse mesmo definido algum relacionamento [carros sem ar-condicionado não são apropriados para o amor; o arroz que ela esqueceu fora da geladeira e ele não pode comer na volta do serviço porque azedou rápido demais foi a gota d’água etc]. Eu olhava o homem sentado à janela, cabeça prensada no vidro, deixando aquela marca sebosa da pele, uma impressão da testa. Era muito gordo e ocupava quase dois lugares. Talvez por isso ninguém, à exceção da mirrada colegial, tivesse tomado assento ao seu lado, mesmo com o ônibus lotado. A expressão geral era a melhor definição que eu já vira do que se chama morbidez, doutor. Ninguém se movia sem extrema necessidade. O ar pesava. A menina lia, alheia ao infortúnio climático de seus convivas de transporte. Com alguma regularidade, tirava os óculos enormes e os esfregava na camiseta para desembaciá-los. Sobressaltava-se, hesitava, avançava a leitura com um misto de avidez e temor. Percebi que não faltavam muitas páginas para o final. Antes de alcançá-lo, contudo, aconteceu.
Ela deu um pequeno salto na cadeira – não o suficiente para abalar o descanso do gordo – e deixou cair o livro. Num rápido reflexo, segurou-o entre as pernas antes que tocasse o chão. Levantou a cabeça e olhou ao redor, quase em câmera lenta. Quisera talvez constatar se a experiência que acabara de provar havia atingido os demais. Tirou os óculos, transtornada. Os lábios tremiam, tremiam, e os olhos se inundaram de lágrimas. Ela as segurava como, digamos, uma mãe que, numa enchente, com uma das mãos em carne viva segura a corda que a tirará da correnteza e com a outra o único bebê que o pai já morto lhe deixou. Mais ou menos assim. Então, as paredes do ônibus se dissolveram; já não havia teto, janelas, catraca, assentos preferenciais ou ordinários; os passageiros flutuavam para todos os lados – até o gordo, pasme – e se integravam, etéreos, à nuvem de nada na qual toda a Terra se transformava: assim dizia o olhar da menina. Era uma mirada que atravessava o cosmo e arrastava consigo cada átomo de vida insensível que estivesse em seu caminho. Não segurou: abriu levemente a boca, tapando-a com uma das mãos, e deixou que o choro explodisse. Eu queria muito ouvir, mas só via. Ela continuava olhando para os lados, como se procurasse alguém com quem compartilhar aquela que era, sem dúvidas, a sensação mais terrível e mais importante jamais experimentada em toda a existência humana. Disso eu não tinha dúvidas. Queria muito tê-la ouvido, muito mesmo. “Diga, mocinha… que aconteceu? Conte. Compartilhe comigo”, queria ter dito. Eu jamais quis tanto alguma coisa, doutor, jamais.
Enfim, desistiu de buscar solidariedade. Encostou-se bem no assento, respirou um pouco, resgatou o livro e o colocou no colo, fechado. Instantes depois, a mãe, vinda lá dos bancos da frente, tocou-lhe de leve no ombro e disse “vamos, filha… o nosso é o próximo”, e desceram.
Entre os meus, o senhor já sabe, me sinto bem. Não me dou conta da diferença. Além disso, escrever sempre foi algo tão corriqueiro – e agora tão terapêutico – para mim que nunca achei que precisaria de nada mais. Entretanto, naquele dia, doutor, e somente naquele dia, eu senti uma profunda tristeza por ser surdo-mudo. Foi a única vez.
[...]
[ além do Bojador ]
10 4th, 2011O ônibus o deixou na esquina. Apesar da ansiedade, seguia o conselho do avô: caminhava lentamente, olhando para o curso do rio que furava a cidade, pensando em cada um dos grandes sonhos de sua vida. Tinha-os na medida exata dos que se têm aos dez anos, morando-se em uma reserva indígena duma cidade do interior: poucos e precisos. A grandeza onírica típica da infância havia sido enterrada com a cirrose do pai.
Chegou à escolinha bem antes do horário marcado, como sempre fazia. Os companheiros de equipe apareciam aos poucos. O treinador misturava instruções a palavras de motivação enquanto contava e recontava infinitamente seus jogadores. Todos ali, finalmente. Chegara a hora. Abraçaram-se, gritaram seu grito de guerra e entraram em campo.
Foi um jogo duro. O equilíbrio entre os times só era quebrado por raras falhas individuais e lances extraordinários ou – nisto havia alguma unanimidade – por equívocos da arbitragem. Venceram, apesar de tudo, e sagraram-se campeões regionais de forma invicta. Ele não levou um único gol; era já uma lenda mirim em Xanxerê, uma inegável promessa para o futuro do esporte local. Com o título, veio o prêmio que era o grande sonho de quase todos do grupo: participar das finais estaduais na capital. Em um mês, estavam lá.
*
Por conta de um grave acidente na estrada, a viagem levou mais que o dobro do tempo. Foi por isso que, dormindo, perderam a bela imagem da ponte iluminada quando chegaram a Florianópolis. No dia seguinte, entraram no ônibus e foram ao local dos jogos. No caminho, pediu ao motorista, em tom de desespero, que parasse. Desceu, atravessou a rua e correu para a praia. Em todo o curto trajeto, esforçou-se para não olhar para frente. Ao perceber que a água estava próxima, parou e fechou os olhos. Respirou o mais fundo que pode e deixou a maresia invadir os pulmões. Aos poucos, foi deixando as pálpebras se separarem, o pescoço se elevar e o coração alagar-se. O azul infinito, acima e abaixo; a alvura da espuma encharcando os tênis; a sensação de que o chão se movia com a maré. Como uma bolada na cara, vieram-lhe à mente todas as vezes em que pensou em desistir do futebol por ser grande e desengonçado, as piadas sobre a escolha da posição ser motivada pela incompetência com a redonda nos pés, as pedradas que tomou no pós-jogo ao tapar o gol em partidas ironicamente chamadas de amistosas. Deixou-se cair de joelhos, fez uma concha com as mãos, juntou um pouco de água e levou calmamente à boca. Era a mais pura verdade, o pai não mentira: “salgada que nem charque”. As lágrimas deram lugar a gargalhadas. Rolava na areia, deixava as ondas baterem, afogava-se, engolia a salmoura sagrada e gargalhava. As pessoas passavam e achavam graça também. Os colegas gritavam do ônibus “Tá loco esse piá! Abobado!”…. “Vamo, Índio, jogue a lança que aí deve de ter peixe, hein?”. A nada fez caso.
Quando o ônibus partiu, e depois de aguentar o arsenal de gracejos que a maldosa criatividade dos amigos disparou, lembrou-se de um poema que a professora de Literatura leu em sala. Dizia algo sobre a alma não ser pequena e fazia uma pergunta sobre quanto do sal do mar eram lágrimas de Portugal. Abraçou mentalmente a professora e sorriu ao pensar que os portugueses já não mais se gabariam sozinhos de tal façanha.
[ o círculo linguístico ]
09 10th, 2011Ela passa. O céu (o sol, enfim) rasga suas vestes. Skates, respirações, param todos. O mecânico vem à porta da oficina:
- Essa aí ó… [pausa] eu lambia até ela me chamar de fi-lho-du-ma-pu-ta [era suficiente; havíamos descoberto a linguagem], e quando ela me chamasse de filho duma puta [pausa, enquanto limpava as mãos engraxadas numa estopa], botava ela de quatro e comia o cuzinho dela [ali nasceu a polução verbal].
De súbito, nova irrupção: no princípio estava o verbo, e o verbo se fez carne, e as carnes se avultaram, e as ciências que doravante se debruçariam sobre a linguagem descobriam ali, abrigada entre pneus, óleos e calendários pornôs – e coberta pelo manto-jaleco – a fonte de onde emanava puro e imaculado seu objeto: o ser que fala. Ali mesmo, igualmente, encontravam discípulos vitalícios: naquele momento, entendemos que a arbitrariedade do significante em relação ao significado só tinha valor quando o ser mais bruto que se conhece, ao observar a criatura mais nauseantemente linda do mundo (que se conhece), não apenas sintetizou com perfeição os desejos mais pulsantes de nossos corpos juvenis, mas desnudou um poder que, até então, desconhecíamos haver em nossa própria língua.
[12 de junho de 2003]
[ molécula ]
08 25th, 2011Amar exige despir-se de qualquer nobreza: nos faltam elétrons naquela derradeira camada.
[ sem aviso ]
08 14th, 2011Domingo, fim de tarde, Agosto. Teus pés sobre a mesinha de centro, o futebol sagrado na TV, as pantufas aquecendo os pés, a pilha de provas corrigidas, a camiseta amarrotada comprada naquele evento na universidade há tantos anos atrás – o mesmo no qual teus lábios percorreram cada milímetro da mulher mais perfeita que já conheceste, mas que nunca mais viste. A campainha toca. Imaginas que poderia ser ela. “Nunca esqueci aquela noite” – e rolariam pelo teu carpete vagabundo, por entre as pipocas do passado e as promessas de futuro. Não era aquela, mas outra, bem menos bela, da época do mestrado. Algumas fodas caprichadas: na sala de aula, num corredor escuro, na copa dos servidores da terceirizada que faz a limpeza, no ático do prédio do curso dela. Legal, não tinhas muito a fazer agora mesmo. “Já vai”. Aquela água no rosto, um gargarejo, uma descabelada estratégica, um roupão de cetim e um rápido ensaio na cara de amante inesgotável. Abres a porta. Ela sorri e não diz nada. Usa aliança na mão direita; há um homem no carro; há um menininho segurando a mão dela. É louro, como ela e o homem do carro. “Uma bela família loura”, pensas. O olhar dela é grave, profundo. “Desculpa não ter te avisado antes”. Ela olha o menino e diz “anda!”. Ele vem e te abraça nas pernas com a força que um menininho não tem. “Desculpa não ter te avisado antes, mas ele queria te conhecer há tempos; só achei que não estaria preparado”. Estavas?
[ cronobiológica III ]
08 2nd, 2011Ontem minha mãe me disse: – Meu filho, para com isso de “morei com ela a vida toda”. Foram só 3 anos, é um décimo da tua existência. Não seja exagerado.
Fiquei pensando nisso a noite toda e acho que a noção de tempo dela, amparada pelo dado estatístico em forma de percentual, não está errada. Ela só não entende o que significa vida.
[ cânone e experiência ]
07 20th, 2011Minha carreira de escritor durou pouco. Foi dos 6 aos 7 anos, com uma última tentativa na adolescência.
Naquele primeiro período literário, escrevia compulsivamente, mostrava tudo à mãe, professora do curso de Letras – o pai, vendedor de implementos agrícolas, só olhava e dava elogios decorados -, e sempre recebia mais ou menos a mesma opinião em enunciados diferentes. Resumidamente, para tudo que eu escrevia havia já algum mito, alguma narrativa clássica, algum poema épico de alguma civilização extinta que tratava do mesmo tema – com mais qualidade, obviamente. Então li sobre todos eles. Queria saber quem eram essas pessoas que, em épocas tão distantes, versaram sobre o mesmo que eu. Quanto mais lia, mais me dava conta de que não havia como escapar do peso da tradição. Cada vez que erguia meus dedos para digitar a primeira letra de um novo texto, sentia todos os Édipos, Electras, Beowulfs e Nibelungos assentados sobre meus tendões. Daí o tal recesso. Intimamente, entretanto, nunca desisti.
No meio da minha festa de 13 anos, enquanto todos os amigos já se encaminhavam a uma das possibilidades desse tipo de evento [vomitar todo o consumido ou passar o resto da tarde tentando beijar alguém que não o tivesse feito], busquei o mais novo texto dessa minha fase de maturação literária. Sentia um misto de orgulho e medo. Segurava o papel com força. Entreguei-o à mãe e, como não era longo, tratei de esperar a resenha. Ela, estirada numa chaise longue de vime, pousou o laptop na mesinha de centro, terminou o cigarro, deu mais um gole no martíni, centralizou os óculos no rosto e começou a ler. Tentei não olhar para ela. Aquela pose toda era tão óbvia, tão pasteurizada, tão eu-já-vi que temi odiar a mãe por isso. Fixei-me no casalzinho lá fora que, num canto, deflorava os limites têxteis que separavam seu ardores de seus corpos. Ela riu alto, a mãe. Eu, taquicardia. Eram muitos anos naquele papel.
- Filho, filho… está muito bem escrito, su-per dra-má-ti-co, mas não sei, acho que não é um problema teu especificamente, é mais essa coisa do… sei lá, da experiência da vida, de um desejo de morte que todo escritor precisa ter… sei lá, ninguém escreve nada na juventude que não sejam releituras justamente por isso, nunca quiseram experimentar a morte sem que isso fosse o cúmulo do dramático… aí tudo é meio patético porque sempre termina em morte do pai, da mãe, uma galinha degolada, sei lá, estou misturando coisas já, estou tão bêbada, hahaha.
À noite, depois de muito refletir sobre o que ela disse, subi ao quarto dos meus pais. Levei um chá. Acharam estranho, mas gostaram. Logo estavam dormindo profundamente. Observei-os um pouco. Queria imprimir na memória aquela imagem, queria perpetuar aquele quadro tão prosaico que jamais seria pintado.
* * *
Ouvi a movimentação toda e fui escrevendo. Quando me localizaram na casa da árvore, ainda pude, antes de postar o texto no blog, digitar as palavras estarrecidas do investigador quando entrou no quarto dos meus pais. Eu via seu olhos atônitos e seus lábios trêmulos quando disse
- Mesmo com toda minha experiência criminal… eu nunca… nunca nunca vi nada parecido com isso…. nunca.
Sorri, postei, desci e me entreguei.
[ cartesiana I ]
07 4th, 2011penso em mim,
descarto-me.
tenso, logo insisto.
de improviso
crio um método
denso; rogo, desisto.
[ autobiografia ]
06 20th, 2011Eu sou aquele que, de fones nos ouvidos, através da janela empoeirada do ônibus, perscruta os paralelepípedos irregulares da calçada de um parque à procura de alguém que tenha, ao resgatar do fundo das algibeiras um maço de cigarros molhados pela chuva que acaba de dar trégua, derrubado um bilhete premiado de loteria.












