:\: Sandro Brincher :/:

Manual de procedimentos para descontrole diário.
[ do lar I ]
07 12th, 2010

Olhar para a caneca sobre a mesa, ver que por seus furos dietétricos se esvaem as calorias de verões idos; aspirar o olor que, lá do berço, anuncia sem dizer nada, pois, por enquanto, todo o anseio de seu emissor é um peito e toda sua linguagem é um descompassado alternar entre lágrima e sorriso; olhar para a grama que, lá no pátio sitiado por cercas-vivas, tenta superar sua sina de ter evoluído para ser pisada, e lembrar que não joga futebol há anos por causa do joelho que dói, e por isso engordou tanto, e por isso faz dieta; mirar um corpo fresco que passa na rua, memória dura, como pouco há no próprio corpo; afastar do prato a folha, atrair o lipídeo, o queimado, com prazer e culpa; eis a existência, eis o refúgio onde a saliva habita.


Pues, Borges, te lo digo yo.
En todas las películas que he visto,
todas las novelas que he leído,
todos los poemas que,
aunque no los hubiera solicitado,
escuché recitados,
en todo eso, me parece,
un sólo tema existe:
el hombre que lo perdió a todo
sin jamás haber tenido cosa alguna.
No se ignora cualquier muslo.


[ tons abaixo ]
05 20th, 2010

Estive fora todo esse tempo.
Lugar confortável, visão privilegiada
de curvas, uma estrada com pedras,
flores tímidas
e um cachorro desafortunado a cada par de dias.

Tudo caía em mim como um sopro só;
doces e salgados, os insetos mesmos eram,
pese sua monstruosa complexidade,
como o ar por onde rasgavam espaços:
puro fluxo avesso a estruturas.

Tudo caía em mim como só caem
as coisas sem apego aos nomes.
Ali todas eram atraídas pelo branco,
e o cinza e o azul,
consangüíneos nos lugares em que
o cinabrino perdeu gosto: é de vida o grosso de seu tom.

Mais além, abaixo, uma voz esperava.
Pouco se precisava para não ouvi-la,
esperava olhos para gritá-los e cantar com eles
os restos de uma fotografia. Contentei-me em
desenhar moldura.

Olhamo-nos uma última vez,
de novo.
O reflexo andava em meu favor,
aliviava meus lábios do peso do olho.
Com o polegar cobri tudo o que havia,
abri uma garrafa e antes do gole abriram-se as luzes.

- Chegamos. Desce do colo.


[ anatômica II ]
05 13th, 2010

Esfarela-se o ritmo, num ponto, ao homem que cheira.
Cada uma de suas narinas é uma maldição sensível.
Indiferente se nisso fundamenta algum prazer.
Basta-lhe uma foto: deseja a morte [
seu sangue (digo, todo) é num instante aquele aroma].
Esfarela-se o corpo, arrítmico, do homem olfato.


[ decepções II ]
04 28th, 2010

Havia um homem – poderia ser uma mulher, enfim – que desejava sempre estar onde as coisas estão.
Um dia disseram: lá, tal hora, estarão as coisas. Foi (sem saber que lá, naquela hora, um grande desastre se daria).
Atrasou-se para sair e não pegou o desastre. Voltou extremamente desapontado por lhe terem mentido.


Minha esposa, deus a tenha, um dia me disse que gostava muito do meu corpo na época em que nos conhecemos. É incrível o que uma descuidada especificação temporal pode fazer, sobretudo quando já não há muito a salvar num casamento.
Causa-me estranheza lembrar tal fato agora, quase vinte anos depois e a poucos metros de ter cumprido integralmente minha pena. Acho que ela morreria de inveja; meus peitos hoje são maiores do que os seus jamais foram.


[ uma possessão ]
02 2nd, 2010

Havia todo tipo de telas. Leves; imóveis; fáceis; esquecidas. Havia também frutas.  Não sabes dizer nomes? Ah, sim. Ácidas; rugosas; orvalhadas; fendidas; até podres.
“Frutas, 1942″. Odiaste aquela assinatura, percebi: uma das letras
era como a haste perfeita de uma pera, um pequeno atentado às metáforas.
Paramos à porta, um após o outro, e a chuva não mudou; todo o asfalto era o curso de um breve relato.
Descemos. Estimei nossa ruidosa distância. O ar era quente, e os corpos. A luz era um arranjo plástico que – só me ocorre esta -
servia a ressaltar a vacuidade semântica do vestido. O som era cheio, grave, longo, como se uma tuba se esforçasse em tanger com seu hausto todas as extremidades da Terra numa única rajada.
Foi ali mesmo, foi rápido. Teus olhos eram um poço (quis mergulhar) enquanto me levavam.
Quis que durasse – mais que este exílio.


[ desterro II ]
01 17th, 2010

Sou uma alma insular / só me desilho pra poder voltar.


Jamais exigi que entendesses as pequenas brechas que propositalmente – e não raras vezes – eclodiam em meus pequenos devaneios ao café da manhã – sempre abraçados pelas paredes – enquanto, com pressa, te arrumavas para ir ao trabalho.

Em nenhum momento fiz menção ao vazio que sentia quando, à noite, depois da janta e do noticiário, no leito tangenciavas meu sexo sem antes ensaiar um afago, insinuar um beijo, libertar algum murmúrio que indicasse que ali, naquele espaço de nascer e morrer, havia uma linguagem que nos tocava a ambos.

Nunca disse o quanto havia de bucólico e aterrador naquele sol que se esparramava como uma gema furada sobre nossas – o cão estava sempre lá – cabeças quando nos sentávamos sobre a duna para, ao longe, observar, singrando o asfalto quente da tarde, aquela que foi a mais esperada das bicicletas daquela rua.

Hoje, mesmo com os tortos paralelepípedos da minha estrada, as telhas de barro que me cobrem e o morro que me priva do crepúsculo com alguma antecedência, até fritar um ovo me faz chorar.


[ sacra I ]
12 14th, 2009

Invejo-os, os medíocres.
O andar enladrilhado,
a roupa suficientemente amassada,
o olhar abaixado, atravessando o ar,
a mastigar o pão-de-ló.
Enciuma-me vê-los, apáticos, de mãos
dadas – equilibradas – àquelas a quem eu,
não fossem as folhas que me tocam alimentar
(coisa de uma infância nova),
diria coisas como “eis que a gota é isso,
cheira” só pelo gosto
de vê-las corar ou fugir,
ou por saber que assim se treinam as audições
e os corpos e as línguas; sabe-se.
Meio que comem, falam, amam.
Invejo-os – alguns, sobretudo – pelo afeto arrastado
que lhes dedicam as ninfas.
É com esse pesar que,
assim oculto por entre as frestas de uma e outra linha,
entrego aqui meu sacerdócio, inconformado
com as réstias duma cosmogonia desfigurada.
Invejo-os, confesso, mas a um mais que todos.



Pesquisar neste blog

  • Siga este blog

    Flickr Fotos recentes

    Micro-colonada (1964)Sandro Brincher (1979)Die Brincher Familie"A pé, amor, é lenha".Life timerEla, enquanto vela, chama (2)

    É blogueiro? Dá-lhe:

    Eu Tenho Um Blog