:\: Sandro Brincher :/:
02 2nd, 2010
Havia todo tipo de telas. Leves; imóveis; fáceis; esquecidas. Havia também frutas. Não sabes dizer nomes? Ah, sim. Ácidas; rugosas; orvalhadas; fendidas; até podres.
“Frutas, 1942″. Odiaste aquela assinatura, percebi: uma das letras
era como a haste perfeita de uma pera, um pequeno atentado às metáforas.
Paramos à porta, um após o outro, e a chuva não mudou; todo o asfalto era o curso de um breve relato.
Descemos. Estimei nossa ruidosa distância. O ar era quente, e os corpos. A luz era um arranjo plástico que – só me ocorre esta -
servia a ressaltar a vacuidade semântica do vestido. O som era cheio, grave, longo, como se uma tuba se esforçasse em tanger com seu hausto todas as extremidades da Terra numa única rajada.
Foi ali mesmo, foi rápido. Teus olhos eram um poço (quis mergulhar) enquanto me levavam.
Quis que durasse – mais que este exílio.
01 17th, 2010
Sou uma alma insular / só me desilho pra poder voltar.
01 4th, 2010
Jamais exigi que entendesses as pequenas brechas que propositalmente – e não raras vezes – eclodiam em meus pequenos devaneios ao café da manhã – sempre abraçados pelas paredes – enquanto, com pressa, te arrumavas para ir ao trabalho.
Em nenhum momento fiz menção ao vazio que sentia quando, à noite, depois da janta e do noticiário, no leito tangenciavas meu sexo sem antes ensaiar um afago, insinuar um beijo, libertar algum murmúrio que indicasse que ali, naquele espaço de nascer e morrer, havia uma linguagem que nos tocava a ambos.
Nunca disse o quanto havia de bucólico e aterrador naquele sol que se esparramava como uma gema furada sobre nossas – o cão estava sempre lá – cabeças quando nos sentávamos sobre a duna para, ao longe, observar, singrando o asfalto quente da tarde, aquela que foi a mais esperada das bicicletas daquela rua.
Hoje, mesmo com os tortos paralelepípedos da minha estrada, as telhas de barro que me cobrem e o morro que me priva do crepúsculo com alguma antecedência, até fritar um ovo me faz chorar.
12 14th, 2009
Invejo-os, os medíocres.
O andar enladrilhado,
a roupa suficientemente amassada,
o olhar abaixado, atravessando o ar,
a mastigar o pão-de-ló.
Enciuma-me vê-los, apáticos, de mãos
dadas – equilibradas – àquelas a quem eu,
não fossem as folhas que me tocam alimentar
(coisa de uma infância nova),
diria coisas como “eis que a gota é isso,
cheira” só pelo gosto
de vê-las corar ou fugir,
ou por saber que assim se treinam as audições
e os corpos e as línguas; sabe-se.
Meio que comem, falam, amam.
Invejo-os – alguns, sobretudo – pelo afeto arrastado
que lhes dedicam as ninfas.
É com esse pesar que,
assim oculto por entre as frestas de uma e outra linha,
entrego aqui meu sacerdócio, inconformado
com as réstias duma cosmogonia desfigurada.
Invejo-os, confesso, mas a um mais que todos.
11 1st, 2009
I
Ivo viu a uva.
Aliás, veio vê-la.
Comeu-a a vaca.
Vovô viu o boi, que babava
bem baixinho, sem uva.
Bobo, o boi; e um vácuo vinícola.
II
Ivo cortou veia da professora.
Única via que viu para não mais ver uva.
Sem testemunhas: vovô babava vinho; bebê, no banho.
III
O bebê babava: vovô virava boi na brasa,
virava bebida na barba.
Ivo acendia vela, ouvia vozes e buzinas.
Vinham viaturas.
10 26th, 2009
De todas as formas de amar, só acredito nas que se abstém da posse. Peço, então, por gentileza, que devolvas a porcaria do meu coração. Grato.
10 17th, 2009
Sempre ouvi vozes; constantes, sutis, e em uma língua que desconhecia. Num dia de verão até bem alegre, entrei em uma empresa de comércio exterior, ou foi de advocacia, não lembro mais, e folheei a gramática de uma língua estranha. Coincidia ser a das vozes que ouvi todos os dias de minha vida. Imediatamente, entendi-as: descreviam, com detalhamento e precisão, a verdadeira técnica de voar. Deixei cair o livro, fui à janela, olhei para fora e senti um calor enorme, meio que um poder. Abri os braços, mirei o horizonte e mergulhei. O vento batia em meu rosto, uma leveza muita, meu sorriso me cobria inteiro. As pessoas ficaram espantadas: como, num dia de verão assim, até bem alegre, não se deixa sequer uma nota?
10 15th, 2009
Não há surpresa alguma: o mesmo vento que nos viu,
o mesmo barro que nos untou,
a mesma luz que, míope, distante, nos fez vultos,
o mesmo fogo que, de algum lugar lá dentro,
explodiu-nos a sintaxe da língua-músculo,
enroscando dizeres,
impelindo-nos a não perder um só movimento,
uma só sílaba,
um só suspiro,
é esse conjunto mesmo de objetos avessos à forma
- sopro, lume, lodo, ar|dor -
a síntese do ruído que rasga o peito:
e dura?
07 25th, 2008
Ontem à noite. Ela dormia. Descobri:
o que meu olfato percebia como dela era, na verdade, um pote plástico (com bico dosador). Em letras grifadas, mentia descaradamente: “NEUTRO”.
07 25th, 2008
Tinha a pele de palavras feita.
Ao toque dos lábios na nuca,
os poros em pânico,
o colo quente,
polegares encolhidos nos pés.
Gesto que abre a carne,
desnuda músculo em flor;
convolações em cada sarda
veia
pêlo
chaga.
Outro toque.
Terremoto,
e o gosto da alvura dos dentes.
Voz. Gesto. Tudo.
E as palavras correm
pela pele,
perfurando poros.
Ataque epiléxico,
alfabetos e bisturis em transe.



























