grave flowers

[ nesse ínterim ]

Minha primeira namoradinha morreu hoje. Talvez ela nem lembrasse mais de mim porque não fui seu primeiro e duvido muito que tenha sido um dos mais marcantes. Eu era jovem, egoísta e ilhado demais para me ocupar em deixar marcas em alguém. O velório está acontecendo a umas três quadras da minha casa, mas não gosto de velórios. Achei mais importante registrar o fato e uma frase que ela disse. “A gente não vai funcionar. Tu é uma pessoa legal, é inteligente, educado, calmíssimo, mas não tem brilho”. Passei a vida correndo atrás disso mesmo sem ter ideia do que se tratava. Um dia, uma namorada disse “O que eu mais gosto em ti é esse teu brilho no olhar. Ele está em tudo que tu faz”. Casamos e ficamos juntos até o dia em que ela morreu, há um par de anos. A primeira e a última se foram. Nada do que aconteceu nesse ínterim foi tão relevante para ser lembrado, exceto os amores – poucos, mas infinitos. O que resta agora é um álbum desbotado, uma música antiga e uma indefinida espera.

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Três semelhanças

A atendente do restaurante, já quase terminando meu prato, começa a conversa:
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode sim.
— Eu sou de São Luís, sabe?
— Sei, claro.
— Então, lá tem uma banda chamada Tribo de Jah.
— Que nome interessante. É banda de quê?
— De reggae. Lá tem muito reggae, mas eles são os mais famosos.
— Talvez eu tenha ouvido já. Gosto muito de reggae e ska.
— Ska eu não sei o que é, mas vou pesquisar. Escreve S, K, A?
— Isso, assim mesmo.
— Então, como vens aqui de vez em quando, toda vez que ouço tua voz, eu lembro da voz desse cara, o vocalista da Tribo de Jah. Cantas também, é?
— Canto muito, mas só no chuveiro ou em festas com som bem alto.
— Mas a tua voz é boa, devias cantar. Meu marido só me conquistou porque é bonito, gosta de música e a voz dele é muito boa. Ele me fala bom dia de manhã e eu já fico animada o resto do dia.
— Puxa, que bonito isso! A minha voz de manhã parece a do Darth Vader.
— Esse é aquele malvadão do filme lá, né?
— Sim, ele mesmo. Até que as pessoas me conheçam, eu sou um malvadão de filme em tempo integral. Mas teu marido canta?
— Ele cantando desafina muito, mas é tão bonitinho. A gente tá casado há 18 anos já.
— É uma vida.
— Sim, é a vida da minha mais velha, a Soraia. Soraia tá na Alemanha, namora com um polonês.
— Ah, a Polônia. Tem muita banda boa lá. Tem uma que tu vai gostar: VESPA. Assim mesmo, igual em Português, VESPA. É uma banda de ska. Eu tenho uma história muito boa envolvendo vespas, uma construção abandonada e meu irmão, mas se eu te contar agora vou comer macarrão frio.
— Ai, desculpa, dá aqui que eu esquento mais um pouco. Enquanto isso, tu vai contando a história.

Resumindo, esquentei esse macarrão umas 3 vezes, comi ali no balcão mesmo, contei várias histórias e conheci uma banda famosa de São Luís chamada Tribo de Jah que, segundo me disse a moça, tem vários cegos na formação, menos o vocalista, fato que me torna, junto com a voz e o gosto pelo reggae, ainda mais próximo dele.

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Nota: LÓGICO que eu conheço a Tribo de Jah há mil anos, mas não dava pra encerrar a conversa ali, né?

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Traumas de graduação I

Ah, a universidade! Tempo, para muita gente, dos primeiros porres; das primeiras sarradas; das primeiras decepções amorosas; das primeiras viagens coletivas (rodoviárias ou metafóricas); dos primeiros baseadinhos no bosque; dos primeiros tequinhos nos banheiros mais obscuros; das primeiras festinhas das quais se volta sem saber como; dos primeiros filhos que, como 99% da humanidade, não foram planejados; da primeira pedrinha encontrada no feijão do RU; do primeiro namorado(a) comunista; enfim, tempo de muitas novidades, umas boas, outras ruins, mas todas absolutamente construtivas.
Entretanto, nessa fissão que se opera entre o Ensino Superior e seu antecessor Médio, algumas das lacunas que se abrem são difíceis de se preencher. Dentro desse angustiante conjunto, uma se destaca mais do que todas: a substituição de uma palavra lúdica, festiva, congregadora, por outra que não faz mais do que delimitar o espaço entre dois períodos de tempo. Em outras palavras, a chaga que se abre quando passamos a usar “intervalo” em detrimento de “recreio” é do tipo para a qual, meus amigos e amigas, não há bálsamo que seja capaz de curar.

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poliglota

[ um poliglota ]

Fila do caixa no Angeloni dos Ingleses. O casal à minha frente, uns 60 anos ambos, conversavam sobre a educação dos brasileiros em contraste com a dos argentinos. Disseram muitas coisas interessantes, mas que não vêm ao caso agora. Depois de atendidos, o senhor disse empolgado à moça do caixa:

– Muchas gracias. ¡Que tenga um buen fin de semana, aunque trabajando!
Ao que ela respondeu:
– Ah, muito obrigado, pra vocês também! Mas melhor trabalhando do que desempregada, né?
Ah, sí, por supuesto. ¡En eso estamos de acuerdo! Hasta pronto.
– Até mais.

É certo que a compreensão que um tinha do idioma do outro, mesmo não falando nada em língua alheia, era ótima, mas uma coisa ficou bastante clara: a cordialidade, como indica a etimologia, vem lá do centro abstrato do músculo cardíaco, e esse, meus amigos, é poliglota bagarai.

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[ in vino memoria ]

Aquele clássico: tava chegando na esquina, o bus passou. Vazio ainda por cima. Nem um minuto depois, pá, o executivo. Viagem tranquila, mesmo com a moça roncando [de leve] no banco de trás. Quando eu tava lá na frente, já na porta esperando pra descer, o motorista me olhou, riu e virou pra frente de novo. Olhei pra frente, aí me olhou de novo. Virei pra ele, que sorriu, deu uma gaguejada, mas acabou falando.
– Tu vai rir, mas tu me lembra uma pessoa… por causa da barba. O frei Francisco. Eu era coroinha lá em Lajeado, eu e meu primo. Ele era bem velho, o frei Francisco, mal andava. Deixava a gente tomar o vinho dele.
Eu só balancei a cabeça e sorri. Não sei se ele viu o sorriso, porque o meu é meio embargado por fora, mas por dentro garanto que tava gigante. Normalmente penso e interajo rápido, mas dessa vez não senti vontade, não vi necessidade, mas senti que havia muita coisa não dita. O sorriso dele ia completando essas lacunas às quais não tive acesso.
O ônibus foi parando, mas continuei esperando a conclusão. A porta se abriu, mas como só eu desceria ali, dei aquela hesitada. Ele encerrou:
– Mas olha, era um vinho bem bão! Hahahaha.
– Dá pra ver nos seus olhos! Obrigado. Boa viagem.
– Boa aula.
Tudo aconteceu muito rápido, talvez um minuto, no máximo. Um minuto é um intervalo através do qual a memória, em sua infinita capacidade de dilatar o que os ponteiros metrificam, consegue conectar cidades, nomes, vinhos e vidas com seu implacável gatilho.

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Surdos ou estrangeiros e vice-versa

Em minhas primeiras incursões no mundo da Libras, ouvi uma frase importante: “ser surdo é ser [tratado como] estrangeiro em seu próprio país“. Foi impactante porque arrancou os surdos da invisibilidade deles que havia em mim. Pois hoje, no Angeloni dos Ingleses, dois rapazes, ambos funcionários, conversavam no estacionamento. O brasileiro explicava ao argentino [depreendi da conversa sua nacionalidade], recém-chegado ao trabalho, alguns procedimentos diários. Ele falava tão alto e tão pausadamente que na hora me ocorreu uma analogia óbvia do ditado aí de cima: ser estrangeiro é ser [tratado como] surdo em qualquer país.

Stranger Things: uma declaração de amor aos anos 80

Stranger Things

Stranger Things

Não está entre minhas práticas comuns escrever resenhas de filmes ou séries, menos ainda publicá-las aqui, mas hoje resolvi abrir uma exceção. Acabei de ver o último episódio e preciso dizer algo a vocês: Stranger Things não é apenas uma série ambientada nos anos 80, é quase uma declaração de amor àquela que por muitos é chamada de “a década perdida”. A trilha sonora (synth power!) e as menções musicais (David Bowie, The Clash, The Smiths, Joy Division); as referências do mundo geek (Dungeons & Dragons; Senhor dos Anéis; HQs; Stephen King), do cinema (Steve, o playboy do rolê, se compara ao protagonista de “Negócio arriscado”, estrelado por Tom Cruise; aparecem muitos posters de clássicos: “Tubarão”, “A coisa”, “Uma Noite Alucinante”) e da moda (com modelitos que muita gente tá usando hoje e recriando tendências); os carros e suas cores tão diversas; as personagens clichês que vão se transformando ao longo da narrativa.
Além desses elementos, temos pelo menos mais quatro: Finn Wolfhard (Mike, o de bom coração), Gaten Matarazzo (Dustin, a criança mais fofa do universo), Caleb McLaughlin (Lucas, o sempre sensato), Noah Schnapp (Will, o desaparecido) e Millie Bobby Brown (Eleven, a fugitiva), o núcleo infantil da narrativa.
Dizer que esta ou aquela personagem é o protagonista seria menosprezar o papel das demais. A importância que cada uma assume na narrativa é bastante equilibrada. O foco narrativo nos empurra a ver as coisas ora a partir de uma, ora a partir de outra. Ora os adultos, ora as crianças. Ora o presente, ora o passado.
Ah, se não bastasse tudo isso, ainda tem Wynona Rider (Os Fantasmas se Divertem; Edward mãos-de-tesoura) e Matthew Modine (Asas da Liberdade; Nascido para Matar), outras duas lendas que estouraram nos 80.
E parece que o sucesso da série, exclusiva do Netflix, não foi só aqui em casa. “BRAZIL LOVES STRANGER THINGS” é um dos trending topics do Twitter nas últimas horas.
Enfim, tanto para os nostálgicos quanto para os entusiastas, são 8 episódios difíceis de ver sem emendar um no outro. Pra quem vai nessa, boa diversão!

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Outras dermatoses

Aí o cara vai fazer um exame dermatológico numa policlínica pública. A moça chama o nome dele. Ele entra, ela tranca a porta, senta e começa a explicar o procedimento:
— Alguém já te disse como se faz esse exame?
— Não, ninguém.
— É bem simples. São fotos. Se na tua requisição disser, por exemplo, dermatose no braço ou na perna, tiramos a foto do braço ou da perna.
— Parece justo.
— Mas se disser “outras dermatoses”, aí é de corpo inteiro. Mas pode ficar de cueca ou de sunga.
— Sunga eu não trouxe, não sou exatamente o cara mais prevenido do mundo, né? Que pensa “buenas, vou fazer um exame dermatológico; levo a carteira do SUS, uma banana de lanche e uma sunga, só pra garantir”, mas a cueca tá a postos.
— Hahaha, você é engraçado. Mas vamos lá. Deixa eu ver aqui… ó, tá vendo aqui na tela? “Outras dermatoses”.
— Mas ali no bonequinho tem só 2 pontos marcados no braço esquerdo, que é onde apareceu essa alergia…
— Sim, mas ali diz “Outras dermatoses”. Aí é como te falei…
— Corpo inteiro, entendi.
— Isso mesmo. Então pode tirar e ficar em pé ali naquele tapetinho.
Tirei a camisa e fui. Ela foi rápida:
— A calça também.
A essa altura, já sem camisa, sem tênis e sem dignidade, a calça era o de menos. Foi-se.
Ela pegou a câmera, uma Sony Cyber Shot DSC-W800, parou à minha frente, focou bem e bateu a foto.
— Fica tranquilo, a cabeça não aparece.
— Juro que nem pensei nisso.
— Agora vira de costas.
Virei. Ela clicou e disse:
— Ok, pode virar de novo. Só um minuto.
Anexou algo parecido a uma pequena lanterna à máquina, só que com uma lâmina quadrada de vidro na ponta. Passou um gel daquele que se usa em ultrassonografias na tal lâmina, veio até mim, encostou no ponto 1 do braço, bateu a foto, encostou no ponto 2, bateu a foto. Conferiu no visor e deu alta:
— Ok, pode se vestir.
Confirmou a data em que minha médica receberia os resultados e a partir da qual eu poderia marcar a consulta de retorno. Destrancou a porta, abriu-a e saí.
Demorei alguns minutos para processar tudo. Por que raios aquelas fotos de frente e de costas se o bagulho era no braço? Na mesma hora me veio à mente a imagem dela abrindo o Whatsapp e enviando as fotos com a legenda “sofrendo na firma”, “dia corrido na repartição” ou “cueca preta, minha favorita”. A médica solicitante do exame responderia “esse aí eu manjo kkk”. Outra diria “aff, e eu aqui em casa morrendo de tédio”. Todas ririam, mas em poucas horas outro desafortunado entraria no feed e eu [sem cabeça, pelo menos] seria esquecido.
O nome do grupo? “Outras dermatoses”, tenho certeza.

Trainspotting, ''The Worst Toilet In Scotland'' scene

Abre-te, Sésamo!

“Um copo d’água não se nega a ninguém”, diz um ancestral axioma. Há quem mui maliciosamente adicione “um boquete” à fórmula, mas aí já é pura invenção modernosa. Apesar de acreditar que o ditado está completo apenas com água, ontem algo sucedeu que me fez pensar em um companheiro digno para ela nesse panteão dos favores inegáveis.
Estava terminando os últimos detalhes para a apresentação dos jogos que produzimos durante o semestre no curso de games do Senai quando ouvi um bater de palmas. Abri a janela e vi um sujeito lá parado. Ele tinha cerca de 1,70, era meio gordinho, calvo e usava óculos. Trajava um conjunto de moletom cinzento bem surrado, mas limpo. Não parecia nenhum junkie desesperado querendo dinheiro, comida, cigarro, enfim. Parecia mais uma pessoa transtornada, nervosa, a quem alguma fatalidade recente tivesse atingido. Na extremidade de seus braços, largados rentes ao corpo, viam-se agitar freneticamente as mãos. Atendi-o.

— Boa tarde. Pois não?
— Boa tarde. Por favor, por favor, será que você poderia me emprestar o banheiro?

Acho que é normal que acontecimentos que fujam a uma suposta normalidade das coisas nos deixem um pouco atônitos por alguns instantes. É o cérebro querendo organizar a repentina desordem instaurada para manter o equilíbrio do universo. Passado esse pequeno desconcerto do mundo, essa tela azul da existência real, retomei a conversa.

— Como assim?
— É que eu moro um pouco longe, lá no finalzão dessa rua, e estou com muita vontade de defecar. Tô com muito medo de não conseguir chegar em casa e me cagar todo.

Ele estava bastante nervoso. As mãos sacudiam ainda mais e a voz soava meio embargada. Disse a ele que esperasse um pouquinho e fui falar com a mãe, que mora nos fundos. Pela descrição, ela imaginou que se tratava de um homem que sempre passava por ali e aparentava sequelas de algum derrame ou algo do tipo.

— Deixa ele usar o 9 [um dos kitchenettes que ela aluga]. Pega aqui a chave.

Fui até a frente e o cara já estava intimando outros inquilinos, mas sem sucesso. No pátio ao lado, onde um grupo de amigos fazia churrasco, ouviam-se piadas sobre o ocorrido. Levei-o até seu temporário oásis, entreguei um rolo de papel higiênico e saí.
Passaram-se muitos minutos. Fiquei preocupado e fui lá averiguar.

— E aí, tudo bem? – Perguntei da porta.
Ele confirmou que sim, mas acrescentou:
— Sabe o que é? É que está meio difícil…
— OK, fica à vontade. Quando acabar, chama a gente.

Em seguida saiu. A expressão dele era a de um mártir. Sorriu um sorriso largo, olhou no fundo dos nossos olhos, agradeceu e foi embora.
Eu poderia, depois dessa épica narrativa toda, dizer que aprendi alguma coisa sobre compaixão, sobre alteridade ou sobre coragem, mas não. Aprendi uma coisa mais simples, mas bem efetiva: há coisas neste mundo que, quando batem à sua portinha, não podem ser reprimidas. Hoje alguém clama à nossa janela. Amanhã, quem sabe, não somos nós fazendo cosplay do Lagreca [Hermes & Renato] no portão de alguém?