[ esverniana I ]

Não há surpresa alguma: o mesmo vento que nos viu,
o mesmo barro que nos untou,
a mesma luz que, míope, distante, nos fez vultos,
o mesmo fogo que, de algum lugar lá dentro,
explodiu-nos a sintaxe da língua-músculo,
enroscando dizeres,
impelindo-nos a não perder um só movimento,
uma só sílaba,
um só suspiro,
é esse conjunto mesmo de objetos avessos à forma
– sopro, lume, lodo, ar|dor –
a síntese do ruído que rasga o peito:
e dura?

[ anatômica I ]

Tinha a pele de palavras feita.
Ao toque dos lábios na nuca,
os poros em pânico,
o colo quente,
polegares encolhidos nos pés.
Gesto que abre a carne,
desnuda músculo em flor;
convolações em cada sarda
veia
pêlo
chaga.
Outro toque.
Terremoto,
e o gosto da alvura dos dentes.
Voz. Gesto. Tudo.
E as palavras correm
pela pele,
perfurando poros.
Ataque epiléxico,
alfabetos e bisturis em transe.

[ 100tidos ]

Som que sai da sala.
Sibilante.
Sinos ensandecidos.
[Surdo]

Músicas que todos cantam.
Milongas miméticas.
Melodias em Mi menor.
[Mudo]

Cítaras em coro
(centenas).
Cínicas como a cidade.
[Cego]

Pregos nos pulsos.
Pedras nos pátios.
Pomares.
Primogênitos nas portas
[pausa]