Trainspotting, ''The Worst Toilet In Scotland'' scene

Abre-te, Sésamo!

“Um copo d’água não se nega a ninguém”, diz um ancestral axioma. Há quem mui maliciosamente adicione “um boquete” à fórmula, mas aí já é pura invenção modernosa. Apesar de acreditar que o ditado está completo apenas com água, ontem algo sucedeu que me fez pensar em um companheiro digno para ela nesse panteão dos favores inegáveis.
Estava terminando os últimos detalhes para a apresentação dos jogos que produzimos durante o semestre no curso de games do Senai quando ouvi um bater de palmas. Abri a janela e vi um sujeito lá parado. Ele tinha cerca de 1,70, era meio gordinho, calvo e usava óculos. Trajava um conjunto de moletom cinzento bem surrado, mas limpo. Não parecia nenhum junkie desesperado querendo dinheiro, comida, cigarro, enfim. Parecia mais uma pessoa transtornada, nervosa, a quem alguma fatalidade recente tivesse atingido. Na extremidade de seus braços, largados rentes ao corpo, viam-se agitar freneticamente as mãos. Atendi-o.

— Boa tarde. Pois não?
— Boa tarde. Por favor, por favor, será que você poderia me emprestar o banheiro?

Acho que é normal que acontecimentos que fujam a uma suposta normalidade das coisas nos deixem um pouco atônitos por alguns instantes. É o cérebro querendo organizar a repentina desordem instaurada para manter o equilíbrio do universo. Passado esse pequeno desconcerto do mundo, essa tela azul da existência real, retomei a conversa.

— Como assim?
— É que eu moro um pouco longe, lá no finalzão dessa rua, e estou com muita vontade de defecar. Tô com muito medo de não conseguir chegar em casa e me cagar todo.

Ele estava bastante nervoso. As mãos sacudiam ainda mais e a voz soava meio embargada. Disse a ele que esperasse um pouquinho e fui falar com a mãe, que mora nos fundos. Pela descrição, ela imaginou que se tratava de um homem que sempre passava por ali e aparentava sequelas de algum derrame ou algo do tipo.

— Deixa ele usar o 9 [um dos kitchenettes que ela aluga]. Pega aqui a chave.

Fui até a frente e o cara já estava intimando outros inquilinos, mas sem sucesso. No pátio ao lado, onde um grupo de amigos fazia churrasco, ouviam-se piadas sobre o ocorrido. Levei-o até seu temporário oásis, entreguei um rolo de papel higiênico e saí.
Passaram-se muitos minutos. Fiquei preocupado e fui lá averiguar.

— E aí, tudo bem? – Perguntei da porta.
Ele confirmou que sim, mas acrescentou:
— Sabe o que é? É que está meio difícil…
— OK, fica à vontade. Quando acabar, chama a gente.

Em seguida saiu. A expressão dele era a de um mártir. Sorriu um sorriso largo, olhou no fundo dos nossos olhos, agradeceu e foi embora.
Eu poderia, depois dessa épica narrativa toda, dizer que aprendi alguma coisa sobre compaixão, sobre alteridade ou sobre coragem, mas não. Aprendi uma coisa mais simples, mas bem efetiva: há coisas neste mundo que, quando batem à sua portinha, não podem ser reprimidas. Hoje alguém clama à nossa janela. Amanhã, quem sabe, não somos nós fazendo cosplay do Lagreca [Hermes & Renato] no portão de alguém?

casamento

A arte da motivação

Numa padaria aqui perto de casa, a atendente começa o diálogo com o dono (da padaria, no caso):
– Olha só, peguei as fotos do casamento.
– Só fotos? Mas tu não quis filmar?
– Ah, seu Henrique, muito caro, né? Mil e poucos reais pra filmar.
– Ah, mas parceladinho não dava?
– E aí eu vou ficar 5 anos pagando que nem carro? Eu não, filmamos tudo com celular mesmo.

Ele pensou um pouco, talvez não o suficiente, e mandou:
– Tá certo. Além do mais, daqui a menos de 5 anos já tão metendo chifre um no outro, os filhos espalhados pela casa dos avós, aquela coisa.
– Ai, seu Henrique, que coisa!
– E não é verdade mesmo?

Ela pensou bem pouquinho, deu um sorriso e disse:
– Pior é que é mesmo, né? Mas que seja que nem aquela música, ou poesia, não lembro bem: que seja duradouro enquanto dure.
– É isso aí, guria. Tem que pensar positivo sempre!

E riram gostosamente. A citação dela não é beeeem do jeito que ela mencionou, mas enfim, saí de lá altamente motivado. Vocês não sairiam?

Hello Nietzsche

Niilismo para crianças (em lições simples e fáceis de entender)

Diálogo presenciado ontem entre um pai e sua filha, de uns 7 anos, numa sorveteria:

– Mas tu acha justo, filha, eu ficar assando a carne por horas e depois ter que ajudar a lavar a louça ainda?
– Mas ela também trabalhou antes de assar a carne.
– Olha, tem muita coisa de desigualdade ainda porque é uma coisa histórica. As mulheres não tinham acesso à educação, aí foram ficando sempre com os trabalhos que pagavam menos. Mas esse negócio de o homem ficar assando a carne e a mulher lavando a louça é diferente. Isso é muito mais biológico do que cultural.
– Biológico??? [ela realmente se espantou]
– Sim. É só ver o que acontece na natureza.

Nesse momento, fiquei imaginando uma esquilinha [perdoem o neologismo] lavando as nozes que compraram no Macro [na promoção] enquanto o esquilinho coloca fogo no carvão para começar o churrasquinho. Me ajudou a entender melhor a proposição do nobre papai.

– E te digo mais, filha. Todo mundo tem opiniões diferentes, mas o que é errado é a gente ser niilista com as nossas opiniões. Sabe o que é niilista?
– Não sei.
– É extremista. Não pode ser extremista, achar que só o que a gente pensa é que está certo.

Ela estava visivelmente pouco convencida pelas palavras do pai e seguiu firme em seu sorvete. Já eu, mera testemunha, fui embora meio descrente no tal “progresso nas relações de gênero” do qual se tem falado tanto, mas absolutamente firme na minha ideia niilista [ou seja, extremista] de que o certo mesmo é não fazer churrasco de jeito nenhum.
‪#‎GoVegan‬

Kamejiro Senaga saindo da prisão.

Pequena, mas de marca

[Ontem à noite; aproximadamente 22:30; Beira-mar norte; perto da entrada do Habib’s].

Ouvi um barulho estranho e resolvi encostar o carro para ver o que era. Tão logo desci, um cidadão se aproximou. Usava uma jaqueta jeans, uma calça de moletom preta, uns tênis bem detonados e uma mochila apoiada num ombro só. Tinha dois sotaques bem familiares: oeste catarinense e bêbado.

– Boa noite, amigo. É o seguinte… Não vou mentir pra você, acabei de sair do presídio ali e tô com muita fome. Não quer me apoiar num lanche ali [apontando o Habib’s]?
– Cara, só espera eu ver se não tem nada aqui no carro e te apoio nesse lanche. Já vai te encaminhando pra lá, tá chovendo aqui.
– Sem palavras, irmão, sem palavras. A gente faz merda na vida, mas a gente paga, né? Eu paguei as minhas, mas agora eu quero sossego. Tenho família, não posso mais vacilar.
– Aham, mas só deixa eu me concentrar aqui mesmo e a gente já conversa.
– Foi mal, foi mal, já vou pra lá.

Depois de verificar que era só a borracha da porta traseira que estava meio frouxa [por isso o barulho], fui até lá. Ele me viu chegando, sorriu e mandou:

– Cara, eu já sei o que vou fazer pra te compensar. Vou te apoiar nessa jaqueta aqui, ó?

Enquanto eu dizia que não era necessário, ele repetia “mas é de marca, ó” e tentava infrutiferamente tirá-la pra me mostrar a etiqueta. Quase caiu umas duas vezes nesse processo.

– Amigo, eu não quero a tua jaqueta. Não vai me servir. É muito pequena pra mim.

O argumento foi infalível. Entrei, comprei quatro esfihas e dei a ele.

– O que é essa coisa verde aqui?
– É espinafre. Não gosta?
– Eu gosto de tudo. Mas ainda bem que você não comprou de carne. Quem sabe de onde vem essas carnes aí? Eu não como carne na rua. A da cadeia era terrível.
– Só imagino. Cara, o papo tá bom mas eu preciso ir.
– Muito obrigado mesmo, mas não querendo ser abusado, sabe o que tá me faltando só? R$ 3,15 pra pegar o ônibus e voltar pra casa. Eu moro lá no Rio Vermelho, sabe?
– Rio Vermelho?

Pensei por alguns instantes e não consegui conter meu impulso de bom samaritano.

– Se tu me promete que não vai ficar falando muito daqui até lá, te dou uma carona. É sério, tô com muita dor de cabeça, hoje foi um dia péssimo [mentira].
– Nem acredito, cara! Tu vai fazer isso por mim? Tu não é viado, não tá querendo só me levar pra grupo?
– Não, cara, não sou viado, eu moro bem perto do Red River, não me custa nada ir um pouco adiante.
– Sem palavras, irmão, sem palavras.

A viagem foi, como eu previa, prolixa. O cidadão falava sem trégua. Quase no final, que ficava a uns 2 Km da minha casa, perguntei:

– Que horas saíste… de lá?
– Ah, não sei, faz uns 3 dias já.
– 3 dias??? Entendi tu falar “ACABEI de sair do presídio”.
– Ah, mas 3 dias aqui fora pra quem ficou um ano lá dentro…
– Entendi.
– E tu, já puxou cana?
– Não exatamente. Já fui casado, e às vezes me sentia encarceirado.
– Deuzulivre, sei beeeem como é isso.
– Quando eu tinha 16 anos, os dois PMs do bairro me fizeram passar a noite na “cela” da sede deles junto com mais dois amigos. Foi até divertido.
– Mas o que vocês fizeram?
– Briga de torcida organizada. Tomei um tijolaço de raspão na cabeça, o pai de um amigo meu botou um revólver na minha cara, apedrejei um CTG onde os “inimigos” se esconderam. Foi nesse nível, a coisa.
– Mas ah, maloqueiragem! De que time? Não vai me dizer que tu é do Grêmio?
– Sim, sou gremista.
– [visivelmente emocionado] Eu sabia, só um gremista pra me quebrar um galho desses. Foi a mão de deus olhando por mim.
– Se fosse a mão de deus, teu benfeitor teria sido um argentino com duas buchinhas de pó e não um gremista ateu. Mas se tu fosse colorado, eu te ajudaria da mesma forma.
– Ah, gaudério, não me decepciona! [ambos rimos]. Ah, é ali, é ali, ó. Pode parar por aqui.

Encostei o carro. Ele sai, veio à minha janela, apertamos as mãos e ele agradeceu mais uma vez.

– Valeu, dos meus! Se algum dia você precisar de alguma coisa, já sabe onde eu moro. Qualquer coisa, mas que não dê cadeia, né?
– Fica tranquilo. Se eu precisar, apareço.

Nisso, sai a mulher dele à rua. Negra, bem alta, corpulenta, segurando uma faca numa mão e uma mandioca na outra; visivelmente furiosa. Eu teria esperado uma recepção mais amável.

– Ah, então é assim, safado? Sai pra fazer rancho e volta bêbado, sem nada na mão e de taxizinho? 3 dias depois?
– Shhhh, amor, não faz barraco, vamos entrando que eu já te explico…

A única coisa que me ocorreu foi que perdi de sair disso com pelo menos uma jaqueta. Pequena, claro, mas de marca.

Física, Shakespeare e adaptações

Já era levemente estranho que, em pleno “horário do parquinho” [ou seja, hora livre para fazer o que quiser], uma turma de 4º do ensino fundamental [com idades entre 9 e 10 anos] estivesse na biblioteca em um dia ensolarado e quente. Mais estranho ainda o grupo de 4 meninas à mesa, concentradíssimas, com livros de Física do ensino médio. Isso mesmo: Física do ensino médio. Afinei a audição e comecei a perceber o que se passava.
1) Baaaaaah, olha só isso aqui: “O Sol é a fonte primária de energia que garante a existência da vida na Terra”.
2) Ah, eu já sabia disso. Pode ver que todo mundo que não pega sol fica com cara meio de morto.
3) É verdade, fica mesmo.
4) A Física explica muita coisa, né? Mas é muito difícil isso aqui.
2) Imagina tudo que a gente pode aprender até chegar nesse livro. Nem vamos mais precisar dele.
1) Verdade, mas vou continuar lendo. Eu gosto de não entender as coisas [ <3 ]
Na mesa próxima, dua outras meninas discutiam o conteúdo a ser estudado:
– Ah, mas tem que estudar sobre o Stephen Hawkings, né?
– Ih, não sei, mas esse livro aqui tem sabe o quê? S-h-a-k-e-s-p-e-a-r-e. Eu li uma tragédia dele, mas não lembro o nome. Só lembro que gostei demais.
-Mas tu sabe que isso aí não é o texto de verdade né? É uma adaptação. Esse aí tem uma linguagem mais fácil.
Houve um pequeno silêncio, enquanto a outra pensava numa resposta adequada:
– Bom, amiga, mas é o que a gente consegue por enquanto, né? Se um dia a gente vai estudar aquela Física ali e vai saber, duvido que não consiga ler o Shakespeare de verdade.
– Não é “de verdade” que se diz, Fulana, é “no original”. A gente vai ler no original.
– Ai, desculpa, pro-fes-so-ra…
E ambas saíram dali rindo.

"Hitchhiking near Vicksburg, Mississippi in 1936", fotografia de Walker Evans

O melhor ano da minha vida OU História de (alg)uma(s) carona(s)

Nota: eu achei que tinha publicado esse texto no fim do ano passado, mas minha postagem programada não funcionou e só me dei conta disso agora. Aí vai, com atraso mesmo, porque 2014 mereceu.

"Hitchhiking near Vicksburg, Mississippi in 1936", fotografia de Walker Evans

“Hitchhiking near Vicksburg, Mississippi in 1936”, fotografia de Walker Evans

Segundo meu “Livro de caronas” [um caderninho no qual eu anoto algo sobre as pessoas a quem dou carona], em 2014 eu recolhi pessoas de 12 países [Argentina, Uruguay, Equador, Angola, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Austrália, Espanha e República Tcheca] e de 10 estados brasileiros [RS, SC, PR, SP, MG, GO, BA, AP, MS, MT]. No total, foram 76 pessoas diferentes. Entre elas, algumas eu levei mais de uma vez.

O caso mais curioso é o de um cara que mora na Fortaleza da Barra [definitivamente o grande destino dos que embarcam comigo] a quem eu já dei carona 12 vezes só neste ano. Numa quinta-feira, saindo duma reunião pedagógica, as nuvens resolveram drenar seu conteúdo e jogaram tudo aqui pra baixo. Eu tava quase sem visibilidade e um carro na contramão me fez encostar bem na calçada pra escapar da colisão, aí o farol iluminou o ponto de ônibus uns 10 metros adiante. A figura me pareceu familiar. Parei o carro no ponto e o reconheci. “E aí, véio, queres carona?”. Ele só não chorou porque não deixei.

– Poooooorra, irmão! Eu tenho a impressão de que se eu levantar as mãos pro céu e pedir ajuda em qualquer lugar, tu aparece logo em seguida!
– Esse teu deus é bem zoeiro, mandou logo um ateu, hahaha.
– Ah, ele tem seus métodos, né? hahahaha. Cara, tô bebaço, sem grana e ainda dei um topaço numa pedra antes de a chuva começar. Sentei no ponto, olhei pro chão e achei 5 reais. Não deu 1 minuto, tu apareceu. Isso não é um sinal divino?
– Olha… eu tenderia a achar que é apenas sorte pra caralho. Eu também sou um cara de muita sorte, o que é perigoso, porque me faz confiar apenas nela em alguns momentos.
– Ah, se eu dependesse da minha sorte… tava frito, irmão.
– Não é o que eu tô vendo. Quem sabe tu começa a acreditar que esse é o ano em que ela vai mudar.
– Deus te ouça, deus te ouça, mesmo tu não acreditando nele, hahahaha.
– Amém! Hahahaha.
– Se não for pedir demais, bota aquele ska maneiro que tavas ouvindo o outro dia.
– É pra já!

Coincidência ou não, este foi um ano também para mim de muitas mudanças. Nem todas foram pacíficas, benéficas ou prazerosas. Por outro lado, aconteceram tantas coisas boas, pequenas coisas, que não há como não me sentir tentado a achar que este foi o melhor ano da minha vida. Já houve tantos outros melhores anos da minha vida que eu poderia fazer uma modesta coletânea deles. O que torna este em específico muito bom, entretanto, é certamente a forma pela qual aprendi a olhar o mundo. Sentado aqui na varanda de casa, a Midi no puff ao meu lado, a bicicleta azul ali estacionada, meu violão sempre solidário com minha melancolia, as bananeiras carregadas e a chuvinha caindo de leve, não posso deixar de pensar nisso com gratidão. Não sou grato a nenhuma força superior, nenhum ser divino, nenhum esoterismo. Sou grato às coisas como elas são, sem etiquetas, sem position papers, sem teses ou dissertações. Sou intransitivamente grato. Tenho todos os motivos para isso e faço questão de materializar esse reconhecimento na escrita. E obrigado pela leitura.

Sobre o Dia das Mulheres: digo nada

CarOs amigOs,
Ontem à tarde, depois de um dia muito trabalhoso, resolvi escrever algumas coisas a respeito do Dia da Mulher e de como não há muito pra se “comemorar” nessa data [há muito, óbvio, para se discutir e sobre o que agir]. Digitei “Mulher no Brasil” no Google e cliquei em “Imagens” buscando algum infográfico, alguma tabela, alguma coisa que ilustrasse de forma objetiva algumas coisas sobre as quais eu queria falar. O resultado foi esse aí embaixo. Aí eu fiz aquilo que de mais prático – mas intelectualmente menos corajoso – eu poderia fazer: resolvi me calar. “Quem sou eu para falar sobre isso? O que eu entendo disso? Os livros que li, as discussões acadêmicas de que participei, as situações que presenciei, isso me autoriza a dizer alguma coisa?”. Sendo assim, não vou dizer nada, absolutamente nada, sobre isso. Façam de conta que não leram nada disto aqui, que não viram esta imagem, que sim, há o que se comemorar, aí passem no shopping, peguem aquela flor que vocês vão ganhar depois de consumir X reais em compras e entreguem às mulheres que amam ou admiram. Mas só a elas, por favor. Nada de entregar às outras, as que vocês não conhecem, as que se vestem de jeito estranho, as que não se dão o valor, as que beijam outras mulheres, as que são feias, as que não se vestem com decência, as que não se depilam, as que ganham a vida com fornicação, as que não acham a maternidade a máxima realização feminina, as que apoiam o aborto (porque, como todos sabemos, quem manda no corpo delas é o Estado),as que insistem em querer invadir espaços que são dos homens por direito (divino, eu ia dizer, mas pareceria que estou ironizando…), enfim, a essas que pensam ou se comportam de forma diferente daquelas mulheres que a tua educação [imune a qualquer discriminação de gênero, credo ou etnia] entende como dignas de homenagem. Entrega a florzinha, olha bem nos olhos dela e diz “Feliz Dia das Mulheres”. Mas, veja bem, não precisa dizer que não é de todas. Só que faz isso logo porque daqui a pouco começa o futebol.
Abraço.

"Mulher no Brasil", primeiros resultados de uma pesquisa no Google Imagens

“Mulher no Brasil”, primeiros resultados de uma pesquisa no Google Imagens

O filho do Papai Noel

Joulupukki

Olhei para a tela assim que ouvi o bipe e percebi que, considerando que só havia dois atendentes, demoraria para que eu fosse atendido. Além do mais, passava um pouco da hora de fechar e eu tinha esquecido um documento no guarda-volumes, então teria que armar o ataque retórico para que me autorizassem, tão logo fosse atendido, a buscá-lo no armário lá fora, na área dos caixas eletrônicos. Num gesto automático de desconforto, respirei fundo e, enquanto soltava a respiração, passei a palma da mão vagarosamente pela barba, começando com o indicador sobre o lábio inferior e terminando na pontinha do último fio. Olhei para o lado e percebi que um menino de não mais que uns cinco anos me observava, sorria e me imitava, afagando uma barba imaginária. Sorri para ele também. Ele olhou para o outro lado e cochichou para a irmã “ele é barbudo, olha”. A irmã, apenas um pouco mais velha, mas já impregnada desse misto de decoro, polidez e moralidade de que são feitas as interações sociais com estranhos no mundo adulto, olhou para a mãe, mais ao lado, buscando aprovação para a reprimenda que acabava de dirigir ao gurizinho. Continuei sorrindo, mesmo não sendo algo que costume praticar com assiduidade. Não por rabugice, é só porque nunca gostei do meu sorriso. Ele criou coragem e me perguntou o porquê de deixá-la assim.
– Porque eu vou ser o Papai Noel quando ficar velho.
– Ah, mas a barba dele é branca, a tua é meio vermelha.
– Mas a minha camiseta é branca. Quando eu ficar velho, inverte: a roupa fica vermeha e a barba fica branquinha.
– Aí tu sai por aqui com aquele sacão cheio de presentes, né? Mas lá em casa é meu pai que compra, o Papai Noel eu só vejo no shopping.
A irmã, de repente, imbuiu-se de um senso de cumplicidade quase comovente e interveio:
– Ele é o filho do Papai Noel.
Ele me olhou de novo, mais cuidadoso, um pouco incrédulo, mas desejoso de acreditar.
– É verdade?
– Claro. Mas por enquanto, eu vivo como todo mundo. Vou à aula, ao trabalho, ao banco. Só posso ser Papai Noel depois de bem velhinho.
Ele não disse mais nada. Só se deixou ficar ali, meio boquiaberto por alguns segundos, absorto em suas reflexões, os olhos cheios daquele brilho das pequenas descobertas.
Chamaram minha senha, afinal. Apesar da ótima companhia ter aliviado a espera, minha tão nobre e rara ascendência, infelizmente, não tornou mais sólido o meu apelo ao atendente e tive que aceitar, inconsolável, a derrota da lábia frente à regra.

Essenciais e imperdíveis

A historinha de hoje é sobre um rapaz que queria, mas não podia.

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Aproveitando a mega promoção de fim de ano da Cosac Naify, o cidadão faz aquela lista dos sonhos, só pra sentir como é ter um ZoeiraCard [sem limites]. Depois de selecionar só os “essenciais” e os “imperdíveis”, adiciona o CEP [só pra saber quanto ficaria tudo com o frete]. Olha para a cifra astronômica, para a lista mais maravilhosa da Terra [faltou só “O vermelho e o negro” (Stendhal), fora da promoção] e para o saldo bancário. Reflete um pouco sobre sociedade de consumo, ostentação bibliófila e vida simples, dá um suspiro, clica em cancelar e diz [com convicção duvidosa]:

Eu nem precisava deles mesmo.

Uma lágrima, furtiva e densa, escorre em seu rosto enquanto se dirige à estante cheia de livros ainda não lidos. É um vencedor, embora não acredite.