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[ aniversário ]

Irônico o fato de que, neste Dia Internacional da Língua Portuguesa, é a uma única língua, uma única boca, que lembrei de prestar minha discreta homenagem. Minha pátria é minha saliva.

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[ cadivos ]

1) comparação
Olho-a de minha janela. Move-se qual caracol. Cada passo, cada gesto, cada subir e descer de pálpebras parece a concretização de um ancestral cronograma, elaborado sem apuros e disposto a jamais ser levado a cabo. Ajusto-me ao cair e subir desses ponteiros vivos, aceito seu tique sem taque com certa resignação ante minha própria condição. Movo-me cá; comparo. Sou, sem dúvidas, mais rápido. Grandes olhos anilados se escondem naquele rosto, vizinhados por sulcos, vê-se, acostumados às correntezas salgadas do pranto. Balbucios. Não os entendo. Não faço questão. A chuva filtra minha visualização, transforma o real em impressionista, mas me ajuda a permanecer em meu discreto, quase invisível, afazer. O azul daquelas órbitas é de tons vencidos; já prescreveram sua cota de contemplação do mundo. Hoje, de lá não se fazem nítidos quaisquer contornos, só luz e trevas se diferenciam em espectrogramas que pouca variação aceitam: é catarata. Espreitam, apesar, o movimento, o Esse fluxo cinemático da ladeira em frente ao sobrado. Corpos que ascendem, descendem, incendeiam-se em incursões táteis noite adentro.
Estou obcecado. Quero ter certeza. Persigo meu próprio eixo, para trás, para frente. Giro. Não consigo evitar um sorriso. Um atrasado mostrar de dentes, que cumpriu longa pena sob estes lábios petrificados, mas aproveitou-se e fugiu. Sou, sem dúvidas, mais rápido. Houvesse alguém para confirmar minha constatação, já me daria por satisfeito, mas não é o caso. Serei minha própria testemunha, como sempre. Acaso não é a decadência alheia, muitas vezes, nossa própria transcendência? Para mim é, nego não.

2) contemplação
A filha entrou na sala falando alto, quase gritando. A velha não liberta palavra, só abaixa levemente a cabeça, olhando mais uma vez para a rua; nela vê sua salvação. Não sabe como nem por que pensa nisso, mas prefere não se questionar. Olhar a rua, olhar a vida que não tem mais. Espiar, pela cortina entreaberta, os casais de namorados que descem, mãos dadas balançando, sorrisos fáceis, é um regresso a tempos onde havia beleza em seu rosto, em seu corpo, em seus pensamentos. Surpreende-se com um sorriso, não demora a cerceá-lo. Bobagens; são bobagens que lhe assomam as ideias.
Olha para o relógio, conta giros. Calcula mentalmente horas e minutos faltantes para um dos remédios. Tenta se lembrar qual deles, sem sucesso. Olha a folha da receita, aproxima o rosto, desiste, vai em busca dos óculos. Prefere, com grande esforço, abaixar-se para recolhê-los embaixo da fruteira a solicitar uma rápida leitura à filha sentada à sua frente. Sente-se, apesar de tudo, independente nestes pequenos atos; microscópicas vitórias pessoais. A consequente dor nas costas é como uma cicatriz depois da guerra: souvenir.

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[ da relatividade; da distância ]

Lembro como se fosse ontem (minha memória me engana menos no dia seguinte): duas mulheres conversavam no ônibus. Uma delas pouco falava. Indicador no queixo, cenho cerrado, atentava para cada frase da outra, a Juraci (lembro da ironia do nome), que se queixava de sua vida de casada. Samanta não disse muito; foram alguns conselhos pontuais, precisos. Que aquilo não era nem homem, nem vida para Juraci. Que ela deveria tomar as rédeas de seu destino. Que a liberdade é o único valor nesta vida. E por aí vai. À saída, visivelmente tocada pelas palavras ouvidas, Juraci diz “Foi muito bom conversar contigo. Como é mesmo teu nome?”.
Posso imaginar que tenha seguido aqueles conselhos, que tenha juntado suas roupas, as melhores, as cartas da mãe, os cadernos do filho – e o próprio, eventualmente – e tenha partido, deixando o marido e a vida medíocre para trás. Posso supor que jamais tenha visto sua conselheira novamente. Espero que, tendo tomado a decisão correta, tenha encontrado algum alívio.
Sinto falta, aqui em Helsinki, de muita coisa. A caótica e deliciosa heterogeneidade dos bufês, a alegria muita da vez injustificada dos finais de semana, o mar de sotaques da ilha cosmopolita da qual tive que cortar raízes. Faltam-me aqui, muito mais que tudo, essas histórias ouvidas involuntariamente no coletivo. Arranco-as, aceitando as traições mnemônicas inerentes à função do cronista, do fundo das minhas lembranças. Entretanto, sinto que cumpro um papel importante. Lá, seria só mais um cronista. Aqui, além do branco infinito das paisagens e do frio que parece entranhar nas almas das pessoas, o silêncio do interior desses grandes veículos é tal que me faz entender o assombro que meus relatos, publicados dia sim, dia não, na língua local, causam a essas pessoas. Num ônibus, dois estranhos, completos estranhos imersos em interações efêmeras, mas marcantes. Para estes leitores, não são textos cotidianos, nem memorialísticos, nem pessoais: é literatura fantástica.

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[ medusa ]

Eu tinha certeza do que aconteceria quando eu encontrasse a mulher mais linda do mundo. Foi hoje.
Ela estava no ponto do ônibus; ouvia música no fone e sorria. Subiu primeiro e sentou-se. Tomei lugar num banco ligeiramente à frente, na fileira do lado oposto, assim poderia observá-la pelo reflexo do vidro. Não conseguia olhá-la diretamente, sentia meu corpo enrijecer.
Durante os 37 minutos da viagem, pensei em qualquer coisa pra dizer, uma desculpa qualquer ou mesmo um desses galanteios óbvios, mas efetivos pela elegância; desses que, pese sua absoluta falta de pioneirismo, são sutis como arredar uma franja. Sentia um peso enorme nas pernas cada vez que tentava levantar. Eu gaguejaria, certamente. No fundo, não queria nada, não tinha nenhuma pretensão de dizer algo que impressionasse, que a fizesse sorrir e, depois de alguma conversa, me rendesse um nome e um telefone. Nos metros finais antes do terminal, já me contentaria em dizer a ela de sua condição na ordem mundial das beldades. “Moça, és a mulher mais linda do mundo. Agradeço a atenção”. Pronto, estaria bem assim. Se já não estivesse ciente, saberia disso ali, naquela vulgar situação coletiva, sem aviso, sem expectativas. Eu seria como um repórter, não mais que isso. Ela dormiria bem nesta noite. Talvez esteja mesmo deitada agora, pensando que aquele cara à sua frente queria dizer algo, que era um covarde, mas que seria lindo tê-lo ouvido dizer pessoalmente algo assim exagerado e sincero em uma circunstância daquelas, tão desprovida de qualquer erotismo, mesmo que não quisesse respondê-lo convenientemente. Como entendi que eu não diria nada, aproveitei para escrever. Na saída, juntei todas as forças que me restavam, dobrei o manuscrito e dei a ela. Não parecia surpresa; sorriu, colocou-o no bolso. “Achei que não ias entregar; vou ler com calma; sei onde te achar”, e se foi.
É tal a história que tento explicar a estes implacáveis senhores em minha casa: até esta tarde, não faria qualquer esforço para pagar minha dívida. Tudo mudou, entretanto. Há mais alguém que sabe me encontrar.

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[ cronobiológica II ]

Fila da padaria. Ela puxa uma senha, olha ao redor, certifica-se de que tudo ali está ordenado, de que aquela instância de mundo é puro sentido, e sorri. Tênis, jeans, camiseta curta de algodão: e traços que ofendem a imperfeição natural de todas as coisas, os cravos no nariz da atendente, um pelo na orelha do segurança, minha epiderme flácida que se desprende dos ossos, como se ensaiasse já sua comunhão com argilas profundas. Não se dá conta de seu pequeno exílio, de sua condição absolutamente estrangeira entre estes seres. Penso que sou percebido em meu escrutínio. “Nojento”, diz um olhar. Dói-me – bem mais que a insuportável analogia entre cabelos, neve, papéis ou açúcar – não ser mais digno de captar uma imagem. A isto chamam alguns experiência, entretanto.

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[ leitura ]

Posso ler teus lábios.
Falam de distâncias, de uma forma breve de óbito à qual só se acede através do contato das mãos úmidas com as linhas dos bilhetes.
Dissertam sobre um varal de roupas coloridas que toca, conforme o vento, o muro da pessoa mais triste da rua (enorme a rua, tens que ver).
Dizem de uma dor sazonal, que começa ao girar da chave na porta e termina, tarde, com um latido mais forte, reconhecedor.
Exprimem uma cicatriz no joelho, sobrancelhas díspares, digitais num espelho, uma calça por costurar, um resto de franja na escova; e isso é a galáxia, afinal.
Posso ler teus lábios, acredite.

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Estatística

Ocorreu-me hoje lendo o jornal: das quase 7 bilhões de pessoas neste planeta, só uma me interessa. Resta, entretanto, o problema de ainda não a ter conhecido.

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[ iniciação ]

Eu tinha pouco menos de 6 anos. O circo Vostok, além da grande atração da época, à exceção da minha, não tinha ainda visto qualquer tragédia.
Fui ao banheiro. Sozinho. Não aceitava escolta. Aproximei-me do urinol, ao nível do piso, e baixei as calças. Um homem me olhava. Aproximou-se e disse “não, assim não, vou te explicar”.
Minha mãe me encontrou do lado de fora da lona, chorando baixo, mas não contei o que era. Nunca contei. Não tive coragem. Sentia muita vergonha.
Cada vez que vejo um circo, um urinol ou uma pessoa que explica algo, sinto um pouco daquilo de novo. Esqueço não. Sei que não posso culpar aquele homem que, por pudor, não me ajudou a seguir as instruções verbais que me deu. Não posso culpá-lo nem por aquela vergonha, nem pelas seguintes, de ter molhado as calças ainda várias vezes até adquirir a habilidade de sacar pela braguilha. Naquele circo aprendi a aversão a puras teorias.

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Agradecimentos…

a todos os que votaram no blog. Fiquei na lanterninha, mas foi bom ver alguns comentários. Valeram mais que o eventual prêmio (que, na verdade, não sei qual era).

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