Stranger Things: uma declaração de amor aos anos 80

Stranger Things
Stranger Things

Não está entre minhas práticas comuns escrever resenhas de filmes ou séries, menos ainda publicá-las aqui, mas hoje resolvi abrir uma exceção. Acabei de ver o último episódio e preciso dizer algo a vocês: Stranger Things não é apenas uma série ambientada nos anos 80, é quase uma declaração de amor àquela que por muitos é chamada de “a década perdida”. A trilha sonora (synth power!) e as menções musicais (David Bowie, The Clash, The Smiths, Joy Division); as referências do mundo geek (Dungeons & Dragons; Senhor dos Anéis; HQs; Stephen King), do cinema (Steve, o playboy do rolê, se compara ao protagonista de “Negócio arriscado”, estrelado por Tom Cruise; aparecem muitos posters de clássicos: “Tubarão”, “A coisa”, “Uma Noite Alucinante”) e da moda (com modelitos que muita gente tá usando hoje e recriando tendências); os carros e suas cores tão diversas; as personagens clichês que vão se transformando ao longo da narrativa.
Além desses elementos, temos pelo menos mais quatro: Finn Wolfhard (Mike, o de bom coração), Gaten Matarazzo (Dustin, a criança mais fofa do universo), Caleb McLaughlin (Lucas, o sempre sensato), Noah Schnapp (Will, o desaparecido) e Millie Bobby Brown (Eleven, a fugitiva), o núcleo infantil da narrativa.
Dizer que esta ou aquela personagem é o protagonista seria menosprezar o papel das demais. A importância que cada uma assume na narrativa é bastante equilibrada. O foco narrativo nos empurra a ver as coisas ora a partir de uma, ora a partir de outra. Ora os adultos, ora as crianças. Ora o presente, ora o passado.
Ah, se não bastasse tudo isso, ainda tem Wynona Rider (Os Fantasmas se Divertem; Edward mãos-de-tesoura) e Matthew Modine (Asas da Liberdade; Nascido para Matar), outras duas lendas que estouraram nos 80.
E parece que o sucesso da série, exclusiva do Netflix, não foi só aqui em casa. “BRAZIL LOVES STRANGER THINGS” é um dos trending topics do Twitter nas últimas horas.
Enfim, tanto para os nostálgicos quanto para os entusiastas, são 8 episódios difíceis de ver sem emendar um no outro. Pra quem vai nessa, boa diversão!

Outras dermatoses

Aí o cara vai fazer um exame dermatológico numa policlínica pública. A moça chama o nome dele. Ele entra, ela tranca a porta, senta e começa a explicar o procedimento:
— Alguém já te disse como se faz esse exame?
— Não, ninguém.
— É bem simples. São fotos. Se na tua requisição disser, por exemplo, dermatose no braço ou na perna, tiramos a foto do braço ou da perna.
— Parece justo.
— Mas se disser “outras dermatoses”, aí é de corpo inteiro. Mas pode ficar de cueca ou de sunga.
— Sunga eu não trouxe, não sou exatamente o cara mais prevenido do mundo, né? Que pensa “buenas, vou fazer um exame dermatológico; levo a carteira do SUS, uma banana de lanche e uma sunga, só pra garantir”, mas a cueca tá a postos.
— Hahaha, você é engraçado. Mas vamos lá. Deixa eu ver aqui… ó, tá vendo aqui na tela? “Outras dermatoses”.
— Mas ali no bonequinho tem só 2 pontos marcados no braço esquerdo, que é onde apareceu essa alergia…
— Sim, mas ali diz “Outras dermatoses”. Aí é como te falei…
— Corpo inteiro, entendi.
— Isso mesmo. Então pode tirar e ficar em pé ali naquele tapetinho.
Tirei a camisa e fui. Ela foi rápida:
— A calça também.
A essa altura, já sem camisa, sem tênis e sem dignidade, a calça era o de menos. Foi-se.
Ela pegou a câmera, uma Sony Cyber Shot DSC-W800, parou à minha frente, focou bem e bateu a foto.
— Fica tranquilo, a cabeça não aparece.
— Juro que nem pensei nisso.
— Agora vira de costas.
Virei. Ela clicou e disse:
— Ok, pode virar de novo. Só um minuto.
Anexou algo parecido a uma pequena lanterna à máquina, só que com uma lâmina quadrada de vidro na ponta. Passou um gel daquele que se usa em ultrassonografias na tal lâmina, veio até mim, encostou no ponto 1 do braço, bateu a foto, encostou no ponto 2, bateu a foto. Conferiu no visor e deu alta:
— Ok, pode se vestir.
Confirmou a data em que minha médica receberia os resultados e a partir da qual eu poderia marcar a consulta de retorno. Destrancou a porta, abriu-a e saí.
Demorei alguns minutos para processar tudo. Por que raios aquelas fotos de frente e de costas se o bagulho era no braço? Na mesma hora me veio à mente a imagem dela abrindo o Whatsapp e enviando as fotos com a legenda “sofrendo na firma”, “dia corrido na repartição” ou “cueca preta, minha favorita”. A médica solicitante do exame responderia “esse aí eu manjo kkk”. Outra diria “aff, e eu aqui em casa morrendo de tédio”. Todas ririam, mas em poucas horas outro desafortunado entraria no feed e eu [sem cabeça, pelo menos] seria esquecido.
O nome do grupo? “Outras dermatoses”, tenho certeza.

Abre-te, Sésamo!

“Um copo d’água não se nega a ninguém”, diz um ancestral axioma. Há quem mui maliciosamente adicione “um boquete” à fórmula, mas aí já é pura invenção modernosa. Apesar de acreditar que o ditado está completo apenas com água, ontem algo sucedeu que me fez pensar em um companheiro digno para ela nesse panteão dos favores inegáveis.
Estava terminando os últimos detalhes para a apresentação dos jogos que produzimos durante o semestre no curso de games do Senai quando ouvi um bater de palmas. Abri a janela e vi um sujeito lá parado. Ele tinha cerca de 1,70, era meio gordinho, calvo e usava óculos. Trajava um conjunto de moletom cinzento bem surrado, mas limpo. Não parecia nenhum junkie desesperado querendo dinheiro, comida, cigarro, enfim. Parecia mais uma pessoa transtornada, nervosa, a quem alguma fatalidade recente tivesse atingido. Na extremidade de seus braços, largados rentes ao corpo, viam-se agitar freneticamente as mãos. Atendi-o.

— Boa tarde. Pois não?
— Boa tarde. Por favor, por favor, será que você poderia me emprestar o banheiro?

Acho que é normal que acontecimentos que fujam a uma suposta normalidade das coisas nos deixem um pouco atônitos por alguns instantes. É o cérebro querendo organizar a repentina desordem instaurada para manter o equilíbrio do universo. Passado esse pequeno desconcerto do mundo, essa tela azul da existência real, retomei a conversa.

— Como assim?
— É que eu moro um pouco longe, lá no finalzão dessa rua, e estou com muita vontade de defecar. Tô com muito medo de não conseguir chegar em casa e me cagar todo.

Ele estava bastante nervoso. As mãos sacudiam ainda mais e a voz soava meio embargada. Disse a ele que esperasse um pouquinho e fui falar com a mãe, que mora nos fundos. Pela descrição, ela imaginou que se tratava de um homem que sempre passava por ali e aparentava sequelas de algum derrame ou algo do tipo.

— Deixa ele usar o 9 [um dos kitchenettes que ela aluga]. Pega aqui a chave.

Fui até a frente e o cara já estava intimando outros inquilinos, mas sem sucesso. No pátio ao lado, onde um grupo de amigos fazia churrasco, ouviam-se piadas sobre o ocorrido. Levei-o até seu temporário oásis, entreguei um rolo de papel higiênico e saí.
Passaram-se muitos minutos. Fiquei preocupado e fui lá averiguar.

— E aí, tudo bem? – Perguntei da porta.
Ele confirmou que sim, mas acrescentou:
— Sabe o que é? É que está meio difícil…
— OK, fica à vontade. Quando acabar, chama a gente.

Em seguida saiu. A expressão dele era a de um mártir. Sorriu um sorriso largo, olhou no fundo dos nossos olhos, agradeceu e foi embora.
Eu poderia, depois dessa épica narrativa toda, dizer que aprendi alguma coisa sobre compaixão, sobre alteridade ou sobre coragem, mas não. Aprendi uma coisa mais simples, mas bem efetiva: há coisas neste mundo que, quando batem à sua portinha, não podem ser reprimidas. Hoje alguém clama à nossa janela. Amanhã, quem sabe, não somos nós fazendo cosplay do Lagreca [Hermes & Renato] no portão de alguém?

Síndrome de Glória Pires

A Síndrome de Glória Pires é definida como a incapacidade total ou parcial de emitir opinião relevante sobre qualquer assunto em uma dada situação discursiva. Sofrer dessa síndrome significa que você:

  1.  Poderá não conseguir produzir qualquer opinião assertiva sobre um tópico discursivo;
  2.  Se conseguir começar, a progressão temática será demasiado sucinta ou
  3.  em casos mais extremos, não conseguirá concluir o raciocínio com efetividade.

# Causas
As principais causas da síndrome são comportamentais e físicas.
As comportamentais podem estar associadas a apatia, tédio, falta de concentração espontânea ou deboísmo exacerbado.
As físicas têm relação com disfunções da garganta, cordas vocais, língua, boca, pulmões e outros órgãos. Dor, irritação ou desconforto físico nesses órgãos desestimulam a produção desde juízos de valor elaborados a meras respostas retóricas.

# A SGP e a surdez
Apesar de um pouco ingênua e limitada, é comum a analogia entre a SGP e a surdez, isto porque muitos dos surdos de nascença, por nunca terem ouvido, não aprendem a falar. Os gloriapiréticos, por nunca terem ouvido declarações embasadas e relevantes dentro de um contexto conversacional, não teriam condições cognitivas de produzi-las.

# SGP por escolha
Um variação bem mais rara – mas muito interessante – de SGP é o das pessoas que decidem voluntariamente não emitir opiniões sobre nada. Essa mutação da síndrome ocorrem normalmente por motivos religiosos, sociais ou educacionais, mas pode ocorrer em qualquer contexto e com qualquer pessoa; basta querer.

J. D. Salinger e a inteligência alheia

Hoje é aniversário de J. D. Salinger [1/jan/1919 – 27/jan/2010]​, o mais capricorniano dos escritores. Foi depois de ler seu aclamado romance “O apanhador no campo de centeio” que me dei conta de que eu não era inteligente, era só um cara com meia dúzia de referências e uma boa memória para conhecimento enciclopédico. Era tão pessimista e ranzinza em relação ao mundo quanto o narrador Holden Caufield, mas me sentia meio Sally Hayes:

“Antigamente eu achava a Sally muito inteligente, mas só de burro que eu sou. Só porque ela entendia de teatro, e peças, e literatura e todo esse negócio. Quando as pessoas sabem um bocado sobre essas coisas, a gente leva um tempão para descobrir se são burras ou não. No caso da Sally eu levei anos. Com certeza teria descoberto muito antes, se nós não tivéssemos namorado tanto. O meu problema é que eu sempre acho inteligente a pequena com quem estou me esfregando no momento. Uma coisa não tem droga nenhuma a ver com a outra, mas continuo pensando assim”.

Apesar de que naquela era pré-Google tal habilidade fosse um pouco mais importante, fiquei muito triste, como qualquer adolescente melancólico e de baixa autoestima ficaria. Ao mesmo tempo, aquilo me lançou ótimas perguntas. O que fazer para ser uma pessoa inteligente? Inteligência é dom, é treino ou um pouco dos dois? É realmente importante ser inteligente? As pessoas burras [as realmente burras; não era o caso da Sally Hayes, o narrador exagera um pouco] são mesmo mais felizes?
Nunca consegui responder nenhuma delas. Aliás, rapidamente cheguei à conclusão de que essa era uma empreitada pouco recompensadora. Teve valor, claro, e foi o de me mover em direção a coisas novas, a métodos novos de aprender, mas nunca quis de verdade resolvê-las.
Hoje, ligeiramente mais autoconfiante, mas tristemente mais enciclopédico do que nunca, consigo pelo menos usar essas referências esdrúxulas e aleatórias para fins objetivos. Escrever, por exemplo. As perguntas são outras, mas igualmente insolúveis. Ainda bem.
E vocês, já tiveram essas dúvidas? Já pensaram nisso? Já se sentiram inteligentes ou burros demais em alguma situação? Contem pra mim.

The Catcher in the Rye (1951), by J. D. Salinger.
The Catcher in the Rye (1951), by J. D. Salinger.

Niilismo para crianças (em lições simples e fáceis de entender)

Diálogo presenciado ontem entre um pai e sua filha, de uns 7 anos, numa sorveteria:

– Mas tu acha justo, filha, eu ficar assando a carne por horas e depois ter que ajudar a lavar a louça ainda?
– Mas ela também trabalhou antes de assar a carne.
– Olha, tem muita coisa de desigualdade ainda porque é uma coisa histórica. As mulheres não tinham acesso à educação, aí foram ficando sempre com os trabalhos que pagavam menos. Mas esse negócio de o homem ficar assando a carne e a mulher lavando a louça é diferente. Isso é muito mais biológico do que cultural.
– Biológico??? [ela realmente se espantou]
– Sim. É só ver o que acontece na natureza.

Nesse momento, fiquei imaginando uma esquilinha [perdoem o neologismo] lavando as nozes que compraram no Macro [na promoção] enquanto o esquilinho coloca fogo no carvão para começar o churrasquinho. Me ajudou a entender melhor a proposição do nobre papai.

– E te digo mais, filha. Todo mundo tem opiniões diferentes, mas o que é errado é a gente ser niilista com as nossas opiniões. Sabe o que é niilista?
– Não sei.
– É extremista. Não pode ser extremista, achar que só o que a gente pensa é que está certo.

Ela estava visivelmente pouco convencida pelas palavras do pai e seguiu firme em seu sorvete. Já eu, mera testemunha, fui embora meio descrente no tal “progresso nas relações de gênero” do qual se tem falado tanto, mas absolutamente firme na minha ideia niilista [ou seja, extremista] de que o certo mesmo é não fazer churrasco de jeito nenhum.
‪#‎GoVegan‬

Pequena, mas de marca

[Ontem à noite; aproximadamente 22:30; Beira-mar norte; perto da entrada do Habib’s].

Ouvi um barulho estranho e resolvi encostar o carro para ver o que era. Tão logo desci, um cidadão se aproximou. Usava uma jaqueta jeans, uma calça de moletom preta, uns tênis bem detonados e uma mochila apoiada num ombro só. Tinha dois sotaques bem familiares: oeste catarinense e bêbado.

– Boa noite, amigo. É o seguinte… Não vou mentir pra você, acabei de sair do presídio ali e tô com muita fome. Não quer me apoiar num lanche ali [apontando o Habib’s]?
– Cara, só espera eu ver se não tem nada aqui no carro e te apoio nesse lanche. Já vai te encaminhando pra lá, tá chovendo aqui.
– Sem palavras, irmão, sem palavras. A gente faz merda na vida, mas a gente paga, né? Eu paguei as minhas, mas agora eu quero sossego. Tenho família, não posso mais vacilar.
– Aham, mas só deixa eu me concentrar aqui mesmo e a gente já conversa.
– Foi mal, foi mal, já vou pra lá.

Depois de verificar que era só a borracha da porta traseira que estava meio frouxa [por isso o barulho], fui até lá. Ele me viu chegando, sorriu e mandou:

– Cara, eu já sei o que vou fazer pra te compensar. Vou te apoiar nessa jaqueta aqui, ó?

Enquanto eu dizia que não era necessário, ele repetia “mas é de marca, ó” e tentava infrutiferamente tirá-la pra me mostrar a etiqueta. Quase caiu umas duas vezes nesse processo.

– Amigo, eu não quero a tua jaqueta. Não vai me servir. É muito pequena pra mim.

O argumento foi infalível. Entrei, comprei quatro esfihas e dei a ele.

– O que é essa coisa verde aqui?
– É espinafre. Não gosta?
– Eu gosto de tudo. Mas ainda bem que você não comprou de carne. Quem sabe de onde vem essas carnes aí? Eu não como carne na rua. A da cadeia era terrível.
– Só imagino. Cara, o papo tá bom mas eu preciso ir.
– Muito obrigado mesmo, mas não querendo ser abusado, sabe o que tá me faltando só? R$ 3,15 pra pegar o ônibus e voltar pra casa. Eu moro lá no Rio Vermelho, sabe?
– Rio Vermelho?

Pensei por alguns instantes e não consegui conter meu impulso de bom samaritano.

– Se tu me promete que não vai ficar falando muito daqui até lá, te dou uma carona. É sério, tô com muita dor de cabeça, hoje foi um dia péssimo [mentira].
– Nem acredito, cara! Tu vai fazer isso por mim? Tu não é viado, não tá querendo só me levar pra grupo?
– Não, cara, não sou viado, eu moro bem perto do Red River, não me custa nada ir um pouco adiante.
– Sem palavras, irmão, sem palavras.

A viagem foi, como eu previa, prolixa. O cidadão falava sem trégua. Quase no final, que ficava a uns 2 Km da minha casa, perguntei:

– Que horas saíste… de lá?
– Ah, não sei, faz uns 3 dias já.
– 3 dias??? Entendi tu falar “ACABEI de sair do presídio”.
– Ah, mas 3 dias aqui fora pra quem ficou um ano lá dentro…
– Entendi.
– E tu, já puxou cana?
– Não exatamente. Já fui casado, e às vezes me sentia encarceirado.
– Deuzulivre, sei beeeem como é isso.
– Quando eu tinha 16 anos, os dois PMs do bairro me fizeram passar a noite na “cela” da sede deles junto com mais dois amigos. Foi até divertido.
– Mas o que vocês fizeram?
– Briga de torcida organizada. Tomei um tijolaço de raspão na cabeça, o pai de um amigo meu botou um revólver na minha cara, apedrejei um CTG onde os “inimigos” se esconderam. Foi nesse nível, a coisa.
– Mas ah, maloqueiragem! De que time? Não vai me dizer que tu é do Grêmio?
– Sim, sou gremista.
– [visivelmente emocionado] Eu sabia, só um gremista pra me quebrar um galho desses. Foi a mão de deus olhando por mim.
– Se fosse a mão de deus, teu benfeitor teria sido um argentino com duas buchinhas de pó e não um gremista ateu. Mas se tu fosse colorado, eu te ajudaria da mesma forma.
– Ah, gaudério, não me decepciona! [ambos rimos]. Ah, é ali, é ali, ó. Pode parar por aqui.

Encostei o carro. Ele sai, veio à minha janela, apertamos as mãos e ele agradeceu mais uma vez.

– Valeu, dos meus! Se algum dia você precisar de alguma coisa, já sabe onde eu moro. Qualquer coisa, mas que não dê cadeia, né?
– Fica tranquilo. Se eu precisar, apareço.

Nisso, sai a mulher dele à rua. Negra, bem alta, corpulenta, segurando uma faca numa mão e uma mandioca na outra; visivelmente furiosa. Eu teria esperado uma recepção mais amável.

– Ah, então é assim, safado? Sai pra fazer rancho e volta bêbado, sem nada na mão e de taxizinho? 3 dias depois?
– Shhhh, amor, não faz barraco, vamos entrando que eu já te explico…

A única coisa que me ocorreu foi que perdi de sair disso com pelo menos uma jaqueta. Pequena, claro, mas de marca.

Física, Shakespeare e adaptações

Já era levemente estranho que, em pleno “horário do parquinho” [ou seja, hora livre para fazer o que quiser], uma turma de 4º do ensino fundamental [com idades entre 9 e 10 anos] estivesse na biblioteca em um dia ensolarado e quente. Mais estranho ainda o grupo de 4 meninas à mesa, concentradíssimas, com livros de Física do ensino médio. Isso mesmo: Física do ensino médio. Afinei a audição e comecei a perceber o que se passava.
1) Baaaaaah, olha só isso aqui: “O Sol é a fonte primária de energia que garante a existência da vida na Terra”.
2) Ah, eu já sabia disso. Pode ver que todo mundo que não pega sol fica com cara meio de morto.
3) É verdade, fica mesmo.
4) A Física explica muita coisa, né? Mas é muito difícil isso aqui.
2) Imagina tudo que a gente pode aprender até chegar nesse livro. Nem vamos mais precisar dele.
1) Verdade, mas vou continuar lendo. Eu gosto de não entender as coisas [ <3 ]
Na mesa próxima, dua outras meninas discutiam o conteúdo a ser estudado:
– Ah, mas tem que estudar sobre o Stephen Hawkings, né?
– Ih, não sei, mas esse livro aqui tem sabe o quê? S-h-a-k-e-s-p-e-a-r-e. Eu li uma tragédia dele, mas não lembro o nome. Só lembro que gostei demais.
-Mas tu sabe que isso aí não é o texto de verdade né? É uma adaptação. Esse aí tem uma linguagem mais fácil.
Houve um pequeno silêncio, enquanto a outra pensava numa resposta adequada:
– Bom, amiga, mas é o que a gente consegue por enquanto, né? Se um dia a gente vai estudar aquela Física ali e vai saber, duvido que não consiga ler o Shakespeare de verdade.
– Não é “de verdade” que se diz, Fulana, é “no original”. A gente vai ler no original.
– Ai, desculpa, pro-fes-so-ra…
E ambas saíram dali rindo.

Sobre o Dia das Mulheres: digo nada

CarOs amigOs,
Ontem à tarde, depois de um dia muito trabalhoso, resolvi escrever algumas coisas a respeito do Dia da Mulher e de como não há muito pra se “comemorar” nessa data [há muito, óbvio, para se discutir e sobre o que agir]. Digitei “Mulher no Brasil” no Google e cliquei em “Imagens” buscando algum infográfico, alguma tabela, alguma coisa que ilustrasse de forma objetiva algumas coisas sobre as quais eu queria falar. O resultado foi esse aí embaixo. Aí eu fiz aquilo que de mais prático – mas intelectualmente menos corajoso – eu poderia fazer: resolvi me calar. “Quem sou eu para falar sobre isso? O que eu entendo disso? Os livros que li, as discussões acadêmicas de que participei, as situações que presenciei, isso me autoriza a dizer alguma coisa?”. Sendo assim, não vou dizer nada, absolutamente nada, sobre isso. Façam de conta que não leram nada disto aqui, que não viram esta imagem, que sim, há o que se comemorar, aí passem no shopping, peguem aquela flor que vocês vão ganhar depois de consumir X reais em compras e entreguem às mulheres que amam ou admiram. Mas só a elas, por favor. Nada de entregar às outras, as que vocês não conhecem, as que se vestem de jeito estranho, as que não se dão o valor, as que beijam outras mulheres, as que são feias, as que não se vestem com decência, as que não se depilam, as que ganham a vida com fornicação, as que não acham a maternidade a máxima realização feminina, as que apoiam o aborto (porque, como todos sabemos, quem manda no corpo delas é o Estado),as que insistem em querer invadir espaços que são dos homens por direito (divino, eu ia dizer, mas pareceria que estou ironizando…), enfim, a essas que pensam ou se comportam de forma diferente daquelas mulheres que a tua educação [imune a qualquer discriminação de gênero, credo ou etnia] entende como dignas de homenagem. Entrega a florzinha, olha bem nos olhos dela e diz “Feliz Dia das Mulheres”. Mas, veja bem, não precisa dizer que não é de todas. Só que faz isso logo porque daqui a pouco começa o futebol.
Abraço.

"Mulher no Brasil", primeiros resultados de uma pesquisa no Google Imagens
“Mulher no Brasil”, primeiros resultados de uma pesquisa no Google Imagens

3 dias em Manaus: trechos esparsos de um relato de viagem

Em 2009, estive em Manaus para fazer o concurso para professor efetivo do curso de Letras da UFAM, campus Benjamin Constant. Considerando o objetivo, foi um investimento absolutamente mal empregado. Eu não havia estudado o suficiente e a concorrência era fortíssima. Por outro lado, conhecer a cidade foi uma bela experiência humana e geográfica.
Abaixo estão transcritos alguns trechos do bloco de notas que eu usava como diário. Não me preocupei em ajustar muito o texto. Há, por exemplo, alguns saltos temporais dentro de um mesmo dia, porque eu ia anotando sem preocupação com uma linha narrativa. A coisa toda começa também meio do nada, já que ainda não encontrei as anotações dos primeiros dois dias e dos últimos, incluindo um inesperado encontro com Milton Hatoum. Se isso ocorrer, prometo atualizar o relato.

Páginas do bloco de notas usado como diário

05/maio/2009
Resolvi me aventurar no centro da cidade. Peguei um ônibus e em 20 minutos estava lá, de onde resolvi que iria até a Zona Franca. Na verdade, aquilo que eu achava que ela era dizia respeito ao Pólo Industrial: um lugar onde havia um monte de empresas, cheias de regalias fiscais, fabricando a nata da indústria nacional de eletroquaisquercoisas por preços altamente competitivos. A Zona, entretanto, é coisa bem mais simples. São algumas quadras de uma área de intensa atividade comercial no centro da cidade. Muitas lojas de eletro-eletrônicos, instrumentos musicais, videogames e roupas. O cheiro de banana frita conduzia meu olfato. Não sei se as pessoas daqui o sentem; a fraqueza do hábito pode tê-las anestesiado. É um aroma peculiar, bom, ainda melhor que a fruta que lhe dá origem. É um tipo de banana diferente dos que eu conhecia, mais firme, de sabor mais encorpado, características que se dissipam um pouco com a fritura. Caramelizada [em calda] e com leite condensado, torna-se uma respeitável bomba de calorias. Mesmo assim, minhas intensas incursões urbanas me autorizaram a consumi-la, em sua versão frita, sem remorso.

06/maio/2009
Hoje, o calor à tarde foi insuportável. Segundo os locais, não foi nada comparado ao calor de setembro, o mais quente daqui, mas foi suficiente para me causar enorme desconforto. Apesar disso, tenho a impressão de que algo do frio meridional desembarcou comigo no Eduardo Gomes. Na chegada, enquanto meus olhos se perdiam na imensidão escura do Rio Negro e, pouco antes, no incrível enrolar-se dele com o Solimões – o famoso “Encontro das águas” –, o chefe de cabine do vôo 1866, saído de Brasília às 12h15, titubeava ao dizer que a temperatura em Manaus era de 25º C. O burburinho geral na aeronave me fez entender que se tratava de algo pouco usual. Daqui a pouco entro numa oficina do Festival de Ópera. Depois escrevo sobre isso.

07/maio/2009
Neste exato instante, estou de costas para uma das laterais do Teatro Amazonas, sentado em um banquinho do amistoso largo onde, em outros bancos, muitos estudantes dão vida ao tempo. A brisa está tão agradável que tenho a impressão de que não é a mesma cidade de ontem. O Festival de Ópera não poderia ter encontrado condições climáticas mais adequadas. Desde as 17h10 alterno espera e escrita. Inscrevi-me em algumas oficinas que estão sendo ministradas no Palácio de Justiça, um belo prédio histórico – aliás, abundantes por aqui – que fica atrás do teatro. A de ontem foi com um cenógrafo paulista chamado Renato Rebouças. Confesso que, apesar de ter me impressionado muito mais com o extravagante ecletismo decorativo do palácio, onde arranjos esculturais no teto, imagino que do início do século XIX, disputavam lugar com um gigantesco condicionador de ar modelo split – um verdadeiro gozo térmico –, gostei muito do trabalho do referido senhor em uma peça chamada Arrufos, se não me falha a memória. A oficina de hoje será sobre figurino. Faltam poucos minutos, devo ir.

08/maio/2009
Meu plano principal era sair cedo para ir à feira da Eduardo Ribeiro, a rua que toca as costas do Teatro Amazonas. Dizem que se compra de tudo lá, ou seja, bem mais do que eu precisava. Queria levar alguma lembrança para os que me esperavam. Acordei às 7h30 (8h30 no horário de Brasília) e nem saí da cama. A chuva torrencial – atributo que, agora me ocorre, serve apenas a quem não é amazonense: chuva que se preze, aqui, é sempre torrencial – tamborilava na carcaça metálica do ar-condicionado. Desde a madrugada não havia parado e, segundo me disse minha anfitriã Eva, não iria parar tão cedo. Fiquei um pouco decepcionado, porque minha intenção era comprar alguma coisa para D. Terezinha, mãe da Eva, como reconhecimento pela hospitalidade. Também queria comprar algo pra Eva (é estranho que eu repita tanto o primeiro nome dela, já que ela tem seis primeiros nomes e dois sobrenomes, só que isso é assunto para outro registro), mas dado o fato de que o plano original era do conhecimento dela, isso seria a parte secreta da minha visita à feira. Ficamos em casa, conversando e deixando as horas secarem no mormaço, que não dava trégua mesmo com a chuva. Olho pelo vidro e só vejo o branco e o cinza. Há poucos minutos só havia verde, verde, verde e artérias marrons no meio. Tudo deve seguir exatamente igual sob essa alvura toda. Quando saímos em direção ao aeroporto, olhei para o céu. Era aquele azul-estúpido típico dos dias de partida. Antes de embarcar para cá, esqueci-me de olhar pra cima. Pensei nisso agora como uma lacuna no ritual. É estranho sentir que se quebra um ritual que ainda não se tem por sistemático.

Muito mais forte que a dor em meus ouvidos, causada por uma inesperada e exagerada despressurização da cabine – sentida, a julgar pela inexistência de reações adversas nos outros passageiros, apenas em mim –, foi o golpe que senti ao ter que pagar cinco reais por um copinho de café em Congonhas. Decente o café, diga-se, mas desprovido de qualquer qualidade excepcional que justificasse o exagero do ônus. Eu olhava para a fila do caixa e, enquanto bebia o melhor café que jamais havia experimentado em toda a minha existência – inventei isso na hora para me sentir melhor –, imaginava que todas aquelas pessoas, mesmo aquelas cuja ostentação era evidente, também partilhavam da minha surpresa.