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:\: Sandro Brincher :/:

Manual de procedimentos para descontrole diário.

Archive for the 'Textos' Category

[ amizade colorida ]
05 26th, 2011

Terminei de comer o pastel, engoli apressado o último gole de café e subi para o banheiro. Sempre achei o cúmulo o banheiro do supermercado ser no andar de cima e tão longe da lanchonete, mas eu tinha coisas menos prosaicas para ocupar a cabeça naquele momento. Enquanto subia as escadas, só pensava no que ela tinha me dito, na forma estúpida como as coisas tinham terminado, na falta que eu sentiria do cheiro dela, mas também no alívio de não sentir mais o peso de desejar, amar, possuir a mulher do º~º. A dor de agora compensaria os sonos seguintes.
Abri o zíper, dei aquela segurada no jato e mirei bem num daqueles refis azuis de desodorizadores. O dourado da urina e o anil do produto iam esverdeando o mictório e tudo que isso me lembrava era a grama do bosque onde tivemos nossa primeira vez.
Ouço um choro no cubículo fechado às minhas costas. Primeiro, mais baixo. Intercalava-se com o barulho de uma folha de papel sendo manuseada. Aumentava de intensidade, mas sempre um pouco sufocado pela tentativa de não se fazer ouvir. A folha, o choro, a folha. Apesar do infeliz trocadilho, imaginei, pelo desespero contido, que ele podia fazer uma baita merda. Por um momento me senti menos infeliz. Havia alguma solidariedade naquilo. De repente, eu não era o ser mais infeliz do mundo. Um homem chorava com uma carta na mão, quiçá com as calças arriadas encostadas no chão imundo e aquela ingrata limpeza por fazer antes de sair dali. Eu, no fundo, só lamentava a perda de uma transa amiga. Ele parecia perder tudo.
Um estampido; arma de fogo.
Não, meu, não assim, não assim, que bobagem - pensei comigo. Fui me virar pra sair correndo e pedir ajuda. Não conseguia me mover. Um calor enorme nas costas e, do nada, um sopro glacial invadindo as veias. Caí com a cabeça meio encaixada no mictório e me segurei nessa posição mesmo. Virei os olhos, tudo que pude, para o cubículo. O cano fumegante, o olhar vazio, a calça ainda por abotoar. Éramos amigos, cara. Amigos! Amigos!
Seus gritos foram sumindo. Um verde infinito encharcou minhas memórias.


Jamais exigi que entendesses as pequenas brechas que propositalmente – e não raras vezes – eclodiam em meus pequenos devaneios ao café da manhã – sempre abraçados pelas paredes – enquanto, com pressa, te arrumavas para ir ao trabalho.

Em nenhum momento fiz menção ao vazio que sentia quando, à noite, depois da janta e do noticiário, no leito tangenciavas meu sexo sem antes ensaiar um afago, insinuar um beijo, libertar algum murmúrio que indicasse que ali, naquele espaço de nascer e morrer, havia uma linguagem que nos tocava a ambos.

Nunca disse o quanto havia de bucólico e aterrador naquele sol que se esparramava como uma gema furada sobre nossas – o cão estava sempre lá – cabeças quando nos sentávamos sobre a duna para, ao longe, observar, singrando o asfalto quente da tarde, aquela que foi a mais esperada das bicicletas daquela rua.

Hoje, mesmo com os tortos paralelepípedos da minha estrada, as telhas de barro que me cobrem e o morro que me priva do crepúsculo com alguma antecedência, até fritar um ovo me faz chorar.


[ colecionador ]
04 30th, 2011

Minha mãe é a coisa mais ancestral que minha família conserva. Há também um registro de porte de arma do avô, mas este é ido há muito. O Diccionário Portuguez, de 1883, é a coisa mais antiga que tenho. Já a coleção de tazos, bem mais recente que o tal compêndio, é a mais anterior das minhas posses. Sei as datas de aquisição de todos os meus pertences, sem exceção. Desenvolvi, ao longo dos anos, sofisticados métodos para armazenar e perpetuar essas informações. Tiro fotografias; elaboro fichas catalográficas e as imprimo em duas cópias (uma fica em meu cofre; a outra, num banco em outro país); crio etiquetas com código de barras; faço cópias de segurança semanais dos bancos de dados onde guardo essas informações. Acho impossível que algum dia eu venha a perdê-las. Agora que me aposentei por idade, comecei a pensar em algumas coisas, naquelas que jamais tive tempo de fazer porque minhas coleções mo tomavam todo. Trabalhar um pouco – um serviço leve –, estudar alguma língua estrangeira, talvez até começar a ler algum dos livros que coleciono. Esses pensamentos têm me angustiado demais. Ainda são tantos os itens que me faltam registrar.


[ ocupações ]
03 21st, 2011

Fosse poeta, diria que olho para todas buscando aquela uma. Sendo, entretanto, professor, busco apenas reciprocidade.


Daqui se vê o além Estávamos à mesa. Eu comia com pressa porque era meu aniversário e, depois do bolo e do insuportável “Parabéns a você”, ganhava passe livre pelo resto do dia. Podia ir aonde quisesse, voltar na hora que quisesse. Era como um rito de desprendimento dos grilhões familiares que minha mãe havia estabelecido em etapas anuais desde a primeira série. Aos 6 anos, em meu primeiro dia de liberdade, fui visitar meu pai. O metrô até o fim da linha, depois outro ônibus até a funerária onde ele trabalhava. Gostava de ficar lá, observando as pessoas que passavam na movimentada avenida à frente da loja. Uma quadra acima estava o Hospital de Clínicas. Toda vez que uma sirene anunciava uma ambulância mais apressada, ele e o André, o dono, faziam a mesma piada, mesmo tendo uma considerável coleção delas. Sempre riam com igual intensidade. Eu os acompanhava, não pelo chiste, mas porque o riso era contagiante como um bocejo. Passavam o dia lá, lendo Tex, Fantasma, Conan, distribuindo elogios estranhos às passantes, inventando novos gracejos com ambulâncias apuradas e rindo muito. Eu achava incrível que um lugar tão abútreo pudesse ser tão divertido. Volta e meia, conforme a frequência do infortúnio alheio, saía um ou outro com a Caravan preta a buscar um cliente. Também achava estranho chamarem cliente a quem não vai ser o pagante da conta, mas logo percebi que era pilhéria. Que a vida deva ser divertida, qualquer um pode concordar; eles, entretanto, aplicavam essa máxima ao extremo oposto da existência com tanta eficácia que sempre olhei para aqueles caixões com alguma simpatia.
Estávamos à mesa, eu dizia. Completava 10 anos. Pensei, enquanto tomava o metrô e decidia para onde ir, em algum sentido simbólico de se ter dois dígitos na idade, mas não me ocorreu nada muito bom. Meu pai e o André diziam coisas desconexas, mas interessantes, quando fumavam, então achei que seria bom visitá-los. Havia uma mulher sendo preparada. Eles ouviam Os Atuais e justificaram dizendo que ela havia morrido de enfarto no bailão da Scharlau. Dançava, sorria, de repente caiu. Queriam entrar no clima. O André estava admirado com a perfeição das sobrancelhas dela. Desligaram a música e ligaram a TV para que me distraísse enquanto acabavam. Vi uma multidão de japoneses chorando. Um imperador chamado Hirohito havia falecido. O André disse que ele fez harakiri porque tinha o pinto pequeno. Riram muito, mas eu não. Eu tinha um pinto pequeno de criança, olhos puxados à oriental – herança dele – e fiquei imaginando se meu pai riria no meu funeral. Nos aniversários seguintes, preferi ir ao fliperama.

Estávamos à mesa. Eu comia com pressa porque era meu aniversário e, depois do bolo e do insuportável “Parabéns a você”, ganhava passe livre pelo resto dia. Podia ir aonde quisesse, voltar na hora que quisesse. Era como um rito de desprendimento dos grilhões familiares que minha mãe havia estabelecido em etapas anuais desde a primeira série. Aos 6 anos, em meu primeiro dia de liberdade, fui visitar meu pai. O metrô até o fim da linha, depois outro ônibus até a funerária onde ele trabalhava. Gostava de ficar lá, observando as pessoas que passavam na movimentada avenida à frente da loja. Uma quadra acima estava o Hospital de Clínicas. Toda vez que uma sirene anunciava uma ambulância mais apressada, ele e o André, o dono, faziam a mesma piada, mesmo tendo uma considerável coleção delas. Sempre riam com igual intensidade. Eu os acompanhava, não pelo chiste, mas porque o riso era contagiante como um bocejo. Passavam o dia lá, lendo Tex, Fantasma, Conan, distribuindo elogios estranhos às passantes, inventando novos gracejos com ambulâncias apuradas e rindo muito. Eu achava incrível que um lugar tão abútreo pudesse ser tão divertido. Volta e meia, conforme a frequência do infortúnio alheio, saía um ou outro com a Caravan preta a buscar um cliente. Também achava estranho chamarem cliente a quem não vai ser o pagante da conta, mas logo percebi que era pilhéria. Que a vida deva ser divertida, qualquer um pode concordar; eles, entretanto, aplicavam essa máxima ao extremo oposto da existência com tanta eficácia que sempre olhei para aqueles caixões com alguma simpatia.

Estávamos à mesa, eu dizia. Completava 10 anos. Pensei, enquanto tomava o metrô e decidia para onde ir, em algum sentido simbólico de se ter dois dígitos na idade, mas não me ocorreu nada muito bom. Meu pai e o André diziam coisas desconexas, mas interessantes, quando fumavam, então achei que seria bom visitá-los. Havia uma mulher sendo preparada. Eles ouviam Os Atuais e justificaram dizendo que ela havia morrido de enfarto no bailão da Scharlau. Dançava, sorria, de repente caiu. Queriam entrar no clima. O André estava admirado com a perfeição das sobrancelhas dela. Desligaram a música e ligaram a TV para que me distraísse enquanto acabavam. Vi uma multidão de japoneses chorando. Um imperador chamado Hirohito havia falecido. O André disse que ele fez harakiri porque tinha o pinto pequeno. Riram muito, mas eu não. Eu tinha um pinto pequeno, olhos puxados à oriental – herança dele – e fiquei imaginando se meu pai riria no meu funeral. Nos aniversários seguintes, preferi ir ao fliperama.


[ sms ]
12 5th, 2010

ta na obra? vc levou comida e tudo, que mais vc precisa? te espero no pto na mesma hr. guardei doce p ti“.

Não queria ter visto, mas a mulher digitava sua mensagem com o celular na altura dos meus olhos. Hesitava na escolha das palavras, apagava, refazia, fazia círculos com o polegar sobre o teclado. Enquanto estive naquele ônibus, confortou-me saber que em algum lugar da cidade, àquele exato momento, ele enxugaria o suor do rosto, afastaria as mãos da betoneira e em segundos sua vida se encheria de sentido: nesta noite haverá doce, um guarda-chuva e um coração que espera.


[ aniversário ]
11 5th, 2010

Irônico o fato de que, neste Dia Internacional da Língua Portuguesa, é a uma única língua, uma única boca, que lembrei de prestar minha discreta homenagem. Minha pátria é minha saliva.


[ cadivos ]
10 24th, 2010

1) comparação
Olho-a de minha janela. Move-se qual caracol. Cada passo, cada gesto, cada subir e descer de pálpebras parece a concretização de um ancestral cronograma, elaborado sem apuros e disposto a jamais ser levado a cabo. Ajusto-me ao cair e subir desses ponteiros vivos, aceito seu tique sem taque com certa resignação ante minha própria condição. Movo-me cá; comparo. Sou, sem dúvidas, mais rápido. Grandes olhos anilados se escondem naquele rosto, vizinhados por sulcos, vê-se, acostumados às correntezas salgadas do pranto. Balbucios. Não os entendo. Não faço questão. A chuva filtra minha visualização, transforma o real em impressionista, mas me ajuda a permanecer em meu discreto, quase invisível, afazer. O azul daquelas órbitas é de tons vencidos; já prescreveram sua cota de contemplação do mundo. Hoje, de lá não se fazem nítidos quaisquer contornos, só luz e trevas se diferenciam em espectrogramas que pouca variação aceitam: é catarata. Espreitam, apesar, o movimento, o Esse fluxo cinemático da ladeira em frente ao sobrado. Corpos que ascendem, descendem, incendeiam-se em incursões táteis noite adentro.
Estou obcecado. Quero ter certeza. Persigo meu próprio eixo, para trás, para frente. Giro. Não consigo evitar um sorriso. Um atrasado mostrar de dentes, que cumpriu longa pena sob estes lábios petrificados, mas aproveitou-se e fugiu. Sou, sem dúvidas, mais rápido. Houvesse alguém para confirmar minha constatação, já me daria por satisfeito, mas não é o caso. Serei minha própria testemunha, como sempre. Acaso não é a decadência alheia, muitas vezes, nossa própria transcendência? Para mim é, nego não.

2) contemplação
A filha entrou na sala falando alto, quase gritando. A velha não liberta palavra, só abaixa levemente a cabeça, olhando mais uma vez para a rua; nela vê sua salvação. Não sabe como nem por que pensa nisso, mas prefere não se questionar. Olhar a rua, olhar a vida que não tem mais. Espiar, pela cortina entreaberta, os casais de namorados que descem, mãos dadas balançando, sorrisos fáceis, é um regresso a tempos onde havia beleza em seu rosto, em seu corpo, em seus pensamentos. Surpreende-se com um sorriso, não demora a cerceá-lo. Bobagens; são bobagens que lhe assomam as ideias.
Olha para o relógio, conta giros. Calcula mentalmente horas e minutos faltantes para um dos remédios. Tenta se lembrar qual deles, sem sucesso. Olha a folha da receita, aproxima o rosto, desiste, vai em busca dos óculos. Prefere, com grande esforço, abaixar-se para recolhê-los embaixo da fruteira a solicitar uma rápida leitura à filha sentada à sua frente. Sente-se, apesar de tudo, independente nestes pequenos atos; microscópicas vitórias pessoais. A consequente dor nas costas é como uma cicatriz depois da guerra: souvenir.


Lembro como se fosse ontem (minha memória me engana menos no dia seguinte): duas mulheres conversavam no ônibus. Uma delas pouco falava. Indicador no queixo, cenho cerrado, atentava para cada frase da outra, a Juraci (lembro da ironia do nome), que se queixava de sua vida de casada. Samanta não disse muito; foram alguns conselhos pontuais, precisos. Que aquilo não era nem homem, nem vida para Juraci. Que ela deveria tomar as rédeas de seu destino. Que a liberdade é o único valor nesta vida. E por aí vai. À saída, visivelmente tocada pelas palavras ouvidas, Juraci diz “Foi muito bom conversar contigo. Como é mesmo teu nome?”.
Posso imaginar que tenha seguido aqueles conselhos, que tenha juntado suas roupas, as melhores, as cartas da mãe, os cadernos do filho – e o próprio, eventualmente – e tenha partido, deixando o marido e a vida medíocre para trás. Posso supor que jamais tenha visto sua conselheira novamente. Espero que, tendo tomado a decisão correta, tenha encontrado algum alívio.
Sinto falta, aqui em Helsinki, de muita coisa. A caótica e deliciosa heterogeneidade dos bufês, a alegria muita da vez injustificada dos finais de semana, o mar de sotaques da ilha cosmopolita da qual tive que cortar raízes. Faltam-me aqui, muito mais que tudo, essas histórias ouvidas involuntariamente no coletivo. Arranco-as, aceitando as traições mnemônicas inerentes à função do cronista, do fundo das minhas lembranças. Entretanto, sinto que cumpro um papel importante. Lá, seria só mais um cronista. Aqui, além do branco infinito das paisagens e do frio que parece entranhar nas almas das pessoas, o silêncio do interior desses grandes veículos é tal que me faz entender o assombro que meus relatos, publicados dia sim, dia não, na língua local, causam a essas pessoas. Num ônibus, dois estranhos, completos estranhos imersos em interações efêmeras, mas marcantes. Para estes leitores, não são textos cotidianos, nem memorialísticos, nem pessoais: é literatura fantástica.


[ medusa ]
09 23rd, 2010

Eu tinha certeza do que aconteceria quando eu encontrasse a mulher mais linda do mundo. Foi hoje.
Ela estava no ponto do ônibus; ouvia música no fone e sorria. Subiu primeiro e sentou-se. Tomei lugar num banco ligeiramente à frente, na fileira do lado oposto, assim poderia observá-la pelo reflexo do vidro. Não conseguia olhá-la diretamente, sentia meu corpo enrijecer.
Durante os 37 minutos da viagem, pensei em qualquer coisa pra dizer, uma desculpa qualquer ou mesmo um desses galanteios óbvios, mas efetivos pela elegância; desses que, pese sua absoluta falta de pioneirismo, são sutis como arredar uma franja. Sentia um peso enorme nas pernas cada vez que tentava levantar. Eu gaguejaria, certamente. No fundo, não queria nada, não tinha nenhuma pretensão de dizer algo que impressionasse, que a fizesse sorrir e, depois de alguma conversa, me rendesse um nome e um telefone. Nos metros finais antes do terminal, já me contentaria em dizer a ela de sua condição na ordem mundial das beldades. “Moça, és a mulher mais linda do mundo. Agradeço a atenção”. Pronto, estaria bem assim. Se já não estivesse ciente, saberia disso ali, naquela vulgar situação coletiva, sem aviso, sem expectativas. Eu seria como um repórter, não mais que isso. Ela dormiria bem nesta noite. Talvez esteja mesmo deitada agora, pensando que aquele cara à sua frente queria dizer algo, que era um covarde, mas que seria lindo tê-lo ouvido dizer pessoalmente algo assim exagerado e sincero em uma circunstância daquelas, tão desprovida de qualquer erotismo, mesmo que não quisesse respondê-lo convenientemente. Como entendi que eu não diria nada, aproveitei para escrever. Na saída, juntei todas as forças que me restavam, dobrei o manuscrito e dei a ela. Não parecia surpresa; sorriu, colocou-o no bolso. “Achei que não ias entregar; vou ler com calma; sei onde te achar”, e se foi.
É tal a história que tento explicar a estes implacáveis senhores em minha casa: até esta tarde, não faria qualquer esforço para pagar minha dívida. Tudo mudou, entretanto. Há mais alguém que sabe me encontrar.



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